segunda-feira, 22 de abril de 2013

Meu livro preferido é... HAMLET, de William Shakespeare

HAMLET, de W. Shakespeare (L&PM)



Posso dizer sem nenhum arrependimento que meu livro predileto é Hamlet. Como se sabe, é uma tragédia escrita por William Shakespeare entre 1599 e 1601. Para mim, como leitora e professora, é sempre um prazer poder falar sobre essa obra. Minha edição é de 1998, um pocket da L&PM com tradução de Millôr Fernandes, do tempo da faculdade de Letras e está com as anotações, marcações e comentários que eu ouvia, lia e as colocava ali, no rodapé das páginas para que eu não esquecesse cada coisa que eu considerava interessante. É um livro de estimação. É a história preferida.  Mas vamos à trama: as ações se desenvolvem em torno da vingança e tentativa de reorganização dos valores que Hamlet, o filho de um pai assassinado tenta promover no reino usurpado do mesmo pai morto.  Gertrudes, a mãe; Cláudio, o tio e assassino; Ofélia, a namorada; Polônio, pai de Ofélia e um articulador; Horácio, melhor amigo de Hamlet: são essas as personagens que constroem e distribuem, entre outras tantas, os movimentos de Hamlet. Ele deseja cumprir a vingança exigida pelo espírito do pai que teve o trono da Dinamarca roubado pelo irmão. Instauram-se prenúncios de loucura nas falas de Hamlet, articulam-se modos de uma revanche que destrua o caráter falso e hediondo das ações de Cláudio. A morte abate-se sobre Elsinor. O que me fascina nessa tragédia é justamente o pensamento controverso, confuso e ao mesmo tempo tão articulado do príncipe. Um estudante de Wittenberg, um homem das letras e não das armas, astucioso e ao mesmo tempo passional, movido pelo amor e rancor pela morte do pai. Um processo de desconstrução e reorganização de mundo. Ao final, ele morre, assim como todos os seus alvos de vingança. Só resta Horácio, o melhor amigo, a quem fica a missão de manter a verdade sobre suas ações. O resto é silêncio."



Gabriela Silva é professora de Literatura na UFCSPA. Doutora em Letras pela PUCRS, é uma das coordenadoras da Breviário Cursos e do Sarau das Seis. O que mais admira na Sapere Aude! Livros é o acervo variado. E adora a loja, que acha elegante, bonita...


sexta-feira, 19 de abril de 2013

O haikai

Forma poética de origem japonesa que remonta ao século XIII D.C., o haikai (ou haiku, ou haicai) tornou-se conhecido no Ocidente por sua valorização da objetividade e da concisão textual. Em sua fonte primária, segue a regra de conter sempre três versos, sendo que o primeiro e o segundo verso contém cinco ideogramas e o segundo verso, sete, os quais são publicados em japonês em uma única linha vertical. Esse formato foi trazido para a Europa com a ideia de um poema de três versos, sendo o primeiro e o terceiro de cinco sílabas poéticas e o segundo, de sete sílabas.

O haikai nasce sempre de uma cena ou um objeto natural. Para citar assuntos humanos em seus versos, o haijin (escritor de haikais) faz uma pequena reviravolta filosófica na qual coloca o homem não mais como o centro do universo, ou seu observador, mas parte dele. O haikai marca sempre um movimento, uma relação entre o geral e o particular.

O mais famoso haijin foi Matsuo Bashô (1644-1694), autor de alguns dos mais belos textos dessa forma poética. No Brasil, o haikai começou a ser difundido no início do século XX, sendo Afrânio Peixoto considerado o primeiro haicaísta brasileiro. Assim o escritor descreveu essa forma poética japonesa em seu livro Trovas Populares Brasileiras:

 Os japoneses possuem uma forma elementar de arte, mais simples ainda que a nossa trova popular: é o haikai, palavra que nós ocidentais não sabemos traduzir senão com ênfase, é o epigrama lírico. São tercetos breves, versos de cinco, sete e cinco pés, ao todo dezessete sílabas. Nesses moldes vazam, entretanto, emoções, imagens, comparações, sugestões, suspiros, desejos, sonhos... de encanto intraduzível.

Mas o haikai foi, aos poucos, ganhando feições brasileiras. Guilherme de Almeida estabeleceu uma métrica própria, com o primeiro e terceiro versos rimando entre si e o segundo contendo uma rima entre a segunda e sétima sílabas poéticas; o poeta estabeleceu ainda um título para o haikai, o que foge ao que acontece no Japão. Descendentes de imigrantes japoneses, como Masuda Goga, propuseram uma forma mais próxima da original, com três versos e dezessete sílabas poéticas.

O grande incentivador do haikai no Brasil foi, no entanto, Paulo Leminski. Além de escrever diversos textos nesse gênero, o escritor publicou em 1983 uma biografia de Matsuo Bashô. Millôr Fernandes foi outro grande propagador dessa forma poética singular, que via o haicai como "forma frágil, quase volátil, dependendo da imagística mais do que qualquer outra poesia" e "forma fundamentalmente popular e, inúmeras vezes, humorística, no mais metafísico sentido da palavra". Esses dois autores divulgaram a arte dessa forma poética breve japonesa e criaram uma maneira bem brasileira de escrever haicais. Pelos desafios que oferecem aos poetas, os haicais também foram adotados pelos poetas vanguardistas por sua brevidade e impacto visual. Para a Poesia Concreta, o haicai foi visto primeiramente como modelo de composição ideogramática. Outros poetas que se seguiram a essa escola viram no haicai as potencialidades do efeito máximo na forma mínima de poesia.

Alguns exemplos de haikais de autores brasileiros:
Haicais de Paulo Meninski
Haicais ilustrados de Millôr Fernandes
Haicais de Guilherme de Almeida
Haicais de Fanny Dupré
Haicais de Robertson Frizero

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Ivan Ilitch e a fragilidade humana


Mais conhecido por seus romances, como Guerra e Paz e Anna Karenina, Lev Tolstoi é considerado um dos maiores escritores do século XIX. Em A Morte de Ivan Ilitch, o autor trata de um tema central pouco explorado na literatura – as transformações morais que a dor física é capaz de motivar nos seres humanos. Contudo, a trama bem construída dessa novela abrange outros tantos temas subjacentes de igual importância.

O personagem-título desta novela escrita em 1886 é Ivan Ilitch, um funcionário público do sistema judiciário da Rússia czarista. No início da trama, Ilitch está morto e seus colegas de profissão comentam seu destino e imaginam as possibilidades de ascensão profissional que o posto vago de Ivan Ilitch pode proporcionar-lhes. A história, então, passa a ter como foco Ilitch, desde suas origens familiares até sua progressão dentro da Justiça russa a partir de sua graduação como advogado. Ele é mostrado como um homem que dava grande importância às aparências, que regeram sua vida desde os primeiros anos após sua diplomação – quando gastou o dinheiro que seu pai lhe presenteou para comprar roupas novas e sofisticadas – até seu casamento com Praskovya Fiodorovna, uma mulher que “vinha de boa família, não era mal apessoada, e tinha algumas propriedades em seu nome”, além de ser “bem relacionada” . Um acidente trivial, ocorrido quando de sua mudança para São Petesburgo, deu início à doença de Ivan Ilitch; a dor torna-o pouco a pouco incapaz de desfrutar as riquezas e o convívio em sociedade que os anos de esforço e a decorrente ascensão social lhes haviam oferecido. Seu sofrimento faz com que ele reflita sobre a efemeridade da vida e a inevitabilidade da morte.
TOLSTÓI, Liev
A Morte de Ivan Ilitch
(trad. Boris Schneiderman)
Editora 34

A novela de Tolstoi foi vista por seus contemporâneos como uma crítica a certo materialismo banal e hipócrita que regia a sociedade russa da época. Tais idéias são sugeridas tanto pelas atitudes da esposa de Ivan Ilitch, que passa a rechaçar o esposo a partir do momento que a doença dele impede-a de freqüentar a sociedade, quanto pelas ações do próprio Ilyich para ascender aos mais altos postos de sua carreira de servidor público – o que é espelhado, posteriormente, nos demais colegas de profissão, outros Ivan Ilyich cujas agruras da vida tratarão de ensinar sobre a fragilidade da condição humana.

A estrutura narrativa de A Morte de Ivan Ilitch mostra o domínio que o autor tinha sobre sua arte: o destino do personagem-título está expresso não só no nome da obra, mas também no primeiro capítulo, que tem lugar no prédio da Corte de Justiça, onde se discute a notícia do falecimento de Ilyich, e na casa do falecido, onde se desenrola seu velório. Contudo, o interesse do leitor é mantido ao longo do texto por uma estrutura narrativa na qual as ações estão encadeadas de modo a impulsionar a leitura para o desfecho final: a universalidade do tema cria no leitor uma identificação imediata, já que os episódios da doença de Ivan Ilitch – seus impedimentos, o discurso vazio dos médicos, os diferentes diagnósticos, as dificuldades proporcionadas pela dor – são experiências comuns a todos os seres humanos.

TOLSTÓI, Liev
A Morte de Ivan Ilitch
(trad. Vera Karam)
Editora L&PM
Mais que tratar da doença física, A Morte de Ivan Ilitch é a história de um homem espiritualmente enfermo que encontra, através do sofrimento físico, seu caminho para o crescimento moral e sua salvação. A trajetória de Ivan Ilyich é uma contraditória jornada de uma vida morta, vazia de sentido, para uma morte na qual o sentido da vida parece ser para ele inteiramente compreendido. Tal caráter moralista – facilmente associável à cosmogonia cristã de redenção pelo sofrimento – coaduna-se perfeitamente com as idéias religiosas de Tolstoi, um crítico ardoroso das religiões dogmáticas, mas um homem profundamente espiritualista.

*Texto de Robertson Frizero - escritor, professor de Criação Literária e Mestre em Letras pela PUCRS.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Faça turismo onde bebês dormem ao relento

O blog da Sapere Aude! Livros ganha também a sua seção de humor. LIVROS ESSENCIAIS PARA PESSOAS NEM TANTO... pretende reunir as capas de livros mais engraçadas, bizarras ou inapropriadas já vistas. Nossa coleção promete surpreender a cada semana com uma capa de livro mais inacreditável que a da semana anterior - seja por seu título inesperado, sua ilustração ou fotografia fora de contexto ou sugestiva ou pelo conjunto da obra... 

Começamos com este guia de turismo sobre a América do Sul. Provavelmente da década de 1970, o capista deve ter pensado em captar a atenção dos leitores pelo exotismo do continente desconhecido para os norte-americanos - somente isso pode explicar a escolha da fotografia de capa dentre as centenas de imagens de belíssimos locais dos países abordados no livro que poderiam bem servir como referência. Ou alguém pode imaginar um turista animando-se para vir ao Brasil diante desse convite: "Visite a América do Sul, onde os bebês dormem sobre plantas exóticas no meio de lagos"...

Explorando a América do Sul

Dentro do livro, três filmes

 A Sapere Aude! Livros, além de trabalhar com as últimas novidades do mercado livreiro e abrir suas portas para as novas editoras e as publicações independentes, é também muito solicitada por seu vasto catálogo de livros antigos e raros, com venda para todo o Brasil. Pois é dentro dessas obras mais antigas que são encontrados verdadeiros tesouros que a equipe da livraria vem guardando com carinho. Marcadores de página antigos, mas também fotografias, documentos, bilhetes, cartas, recortes de revista e os mais inusitados objetos, usados para que seus donos não perdessem a página em que tinham interrompido a leitura, fazem parte desta coleção que iremos revelar aqui a cada semana. Nesta seção, mostraremos algumas dessas preciosidades, como o programa que anunciava "jóias do escrínio artístico" de seus promotores para a diversão das tardes (clique na foto acima para ampliar)

Lil Dagover
Esse marcador de páginas improvisado e esquecido dentro de um livro convidava para a apreciação de uma programação de três filmes em sequência - pesquisando pela data em que esses filmes foram produzidos e posteriormente exibidos no Brasil, deduzimos que o programa é do ano de 1929. "Por que choras, palhaço?", um obscuro filme do grande ator sueco Gösta Ekman, é uma obra de tal modo obscura que nem consta na filmografia do ator. Já "Os escravos do Volga", produção de 1928, foi uma das primeiras estrelada pela atriz argentina Mona Maris, que teve uma carreira internacional por falar fluentemente o francês e o alemão, mas recusada por Hollywood por não falar inglês. E "Lábios selados", uma produção alemã de 1928 com Lil Dagover, atriz que ficara famosa à época por participar do clássico filme "O Gabinete do Doutor Caligari", de 1920 (foto acima)

Novidades no nosso blog!

Blog da Sapere Aude! Livros
 ganha novas seções
O blog da Sapere Aude! Livros ganha a partir de hoje novas seções e um novo webmaster. A convite da livraria, o escritor Robertson Frizero será o responsável pela editoria e manutenção de nosso blog. Frizero, um dos coordenadores da Breviário Cursos, ministra oficinas de literatura na Sapere Aude! Livros desde 2011.

Com a entrada de Frizero, o blog ganha novas seções que contarão, inclusive, com uma maior participação dos leitores e clientes da livraria:

  • O blog ganhará novos COLUNISTAS que escreverão sobre os mais diversos temas relacionados ao mundo dos livros.
  • MEU LIVRO PREFERIDO é o nosso espaço para que a equipe e os clientes da Sapere Aude! Livros fale sobre os livros que de alguma forma marcaram suas histórias como leitores. Toda segunda-feira, uma nova declaração de amor.
  • A seção COM A PALAVRA trará todas as terças-feiras frases célebres e trechos de entrevistas concedidas por autores célebres.
  • DENTRO DOS LIVROS é uma seção que trará todas as quartas-feiras imagens curiosas de objetos e inscrições encontradas em livros usados comercializados em nossa livraria. Há verdadeiras preciosidades que nossa equipe vem colecionando há anos e que somente agora serão apresentadas aos nossos amigos leitores.
  • LIVROS ESSENCIAIS PARA PESSOAS NEM TANTO é uma coluna de humor de Robertson Frizero que traz todas as quartas-feiras alguns livros com títulos ou capas inusitados ou bizarros.
  • LEITURAS OBRIGATÓRIAS é a seção das resenhas, que sairá todas as quintas feiras com informações e comentários sobre literatura para todas as idades.
  • CRIAÇÃO LITERÁRIA trará às sextas-feiras textos sobre a arte de escrever nos mais variados gêneros literários.
  • NOVIDADES é a seção que trará sempre boas dicas de leitura dentre as obras dos mais diversos gêneros à venda na Sapere Aude! Livros.
Participe do nosso novo blog. Envie seus comentários, sugestões e críticas ao nosso novo webmaster pelo endereço:admin@sapereaudelivros.com.br .

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Classe C é tema de evento com apoio da Sapere Aude! Livros

O crescimento da classe C no Brasil e seus novos perfis tem despertado diversos debates, principalmente, quando o assunto é comunicação. Pois é justamente para debater as novas estratégias de comunicação com essa classe emergente que no próximo dia 29 ocorre o Comunica-C, iniciativa dos alunos da cadeira de Agência em Comunicação II, do curso de Relações Públicas da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico) da Universidade Ferderal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Participam do evento, que conta com o apoio da Sapere Aude! Livros – que vai sortear Pode 5 vales de R$ 20,00 para troca por produtos da livraria – Elaine Lösch, do Grupo RBS, e Sérgio Furtado, da Agência Matriz. Além de apontar fórmulas de sucesso para gerenciar a comunicação dirigida à classe C, lançando mão de estudos de recepção deste público às mensagens publicitárias, a socióloga e atual gerente-executiva de pesquisa do Grupo RBS, Elaine Lösch, vai abordar as diferenças nas formas de se comunicar com as classes A, B e a nova classe C. Já Sérgio Furtado, responsável pelo planejamento da Agência Matriz – detentora de contas de publicidade como do Zaffari e do Governo do Estado do RS – vai apresentar o case de planejamento de comunicação das Lojas Lebes, por meio da exposição de dados e peças publicitárias. O evento acontece às 19h no auditório 1 da Fabico. Para mais informações, acesse www.facebook.com/ComunicaC.2012.

Conheça os livros indicados pelos debatedores e disponíveis na Sapere Aude! Livros:
A Nova Classe Média – o lado brilhante da pirâmide, de Marcelo Neri
Varejo Para a Baixa Renda, de Juracy Parente, Tania M. Vidigal Limeira, e Edgard Barki
Um Jeito Fácil de Levar a Vida – o guia para enfrentar as situações novas sem medo, de Ricardo Sodré e Renato Meirelles