Mostrando postagens com marcador ENSAIO SOBRE A ROTINA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ENSAIO SOBRE A ROTINA. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Ensaio sobre a rotina: FELICIDADE EM VINTE VEZES SEM JUROS

por Nurit Gil

 Sou uma entusiasta do capitalismo, entendam bem. Mas realmente a extravagância saiu do controle, em minha não tão humilde opinião.
O mercado de clichês - ops, de casamentos - por exemplo:
- Ana, quer casar comigo?
(Ajoelha-se, abrindo um anel de muitos quilates parcelado em 85 anos)
- Sim, Adalberto, sim, mil vezes sim!
(Choro)
Pronto. Tudo acontecido conforme o protocolo por ambos no pré-enlace, prosseguem com o planejamento.
- Tulipas brancas.
- Em todas as mesas?
- Sim, e no palco.
- Mas e o orçamento?
- Adalberto, sonho com este dia desde a minha primeira infância
- Até com as tulipas?
- Brancas.
Nada que não se possa parcelar em mais alguns anos. Juntamente à banda de vinte integrantes, show de escola de samba, vestido da noiva, cortejo e daminhas, comida para quinhentos convidados, móveis de design, pufs descontraídos, brigadeiros gourmet, picolé da moda, havaianas (as legítimas) e bar de caipirinha. 
- O que? Você quer que tenha um massagista no banheiro?
- No casamento da Júlia teve.
- Pirou?
- Lembra? Meu sonho...
As feiras de casamento estão aí para mostrar que isso é um pacote extravagante de tem-que-ter - delírios included - sem o qual, desculpe, você não será feliz para sempre. Então bora hipotecar os primeiros vinte anos da vida a dois.
Repito quantas vezes forem necessárias: faço parte do fã clube do capitalismo. Mas ando incomodada com esta felicidade meio pasteurizada. Ser feliz para sempre tem a ver com mãos dadas, olhar nos olhos e rir da piada do outro, mesmo que menos por graça e mais por amor. O pacote pelo qual pode-se pagar, sinto muito, é delírio sem garantia de nada...
- Estava lindo o casamento, né?
- Sei lá, achei meio estranho o gosto do bem-casado trufado
.... Nem do dinheiro de volta.


*Nurit Gil é uma paulista nos pampas gaúchos, formada em publicidade, mas nunca tendo exercido a profissão. Cronista de corpo e alma, a autora já trabalhou com vendas, marketing e foi mãe em tempo integral. Uma paixão? Nurit gosta de observar gente, escutar conversas, de preferência em ambientes abertos e com uma xícara de café. Sem chantilly. Semanalmente, publica nesta coluna suas impressões do cotidiano porto-alegrense. Nurit Gil lançou recentemente seu primeiro livro, A SENHORA PERFEITINHA E OUTROS TEXTOS, pela Buqui editora.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Ensaio sobre a rotina: IDADE: VIDE BULA

por Nurit Gil

Vinte anos. Pode usar mini saia. Decote descuidado é charme. Pode opinar, mas não espere ser levada a sério. Flerte à vontade. Não ceda à primeira cantada. E sem mãos no primeiro encontro. Pode gostar de vampiros. Pode viajar com o namorado (mas deixe o celular ligado). Pode dirigir à noite. Pode ficar doente. Pode beber, você já é maior de idade.

Trinta e cinco anos. Mini saia nesta idade? Amamentar em público é polêmico. Pode opinar. O livro da Encantadora de Bebês é bárbaro. Cinco malas para passar o final de semana fora. Tem café descafeinado? Não pode ficar doente (nem dá tempo). Beber é mau exemplo, tem suquinho na geladeira.

Cinquenta anos. Mini saia é falta de simancol. Decote abusado também. Deve opinar. Pode escolher o canal de televisão. E o filme no cinema. Flerte sem ser vulgar. Ceda à primeira cantada. Sem ser vulgar. Pode viajar com o namorado (e desligar o celular). Não pegue no pé de ninguém. Mas não seja ausente. Pode beber se a bula do remédio permitir.

- Que saco!

- É...

- Essas regras. Deveria ao menos haver uma idade em que tudo fosse permitido.

- Relaxe.

- Não dá pra relaxar.

- Você bebeu demais?

- Talvez.

- Vamos para casa.

- É, acho que não tenho mais idade...


*Nurit Gil é uma paulista nos pampas gaúchos, formada em publicidade, mas nunca tendo exercido a profissão. Cronista de corpo e alma, a autora já trabalhou com vendas, marketing e foi mãe em tempo integral. Uma paixão? Nurit gosta de observar gente, escutar conversas, de preferência em ambientes abertos e com uma xícara de café. Sem chantilly. Semanalmente, publica nesta coluna suas impressões do cotidiano porto-alegrense. Nurit Gil lançou recentemente seu primeiro livro, A SENHORA PERFEITINHA E OUTROS TEXTOS, pela Buqui editora.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Ensaio sobre a rotina: INTIMIDADE

por Nurit Gil


Apesar da criação tradicional, Carola não era exatamente pudica. Descobrira até bem cedo as tentações da vida e sucumbira a quase todas elas. 

O primeiro beijo de língua aconteceu enquanto suas amigas ainda tentavam fazer tranças em bonecas. O baseado, o sexo e - por que não - o brigadeiro de panela em madrugada de fossa, todos antes do baile de debutantes do colégio, quando estreou a tatuagem de onça desenhada do pescoço ao cóccix sob o vestido de tafetá decotado. 

Rodou o mundo, namorou, pirou, meditou, experimentou, separou. Repetidas vezes. Sabia que era moderna para os padrões da sociedade e, inclusive, nutria certo orgulho quando referiam-se a ela como uma libertina.

Mas aconteceu de um dia, voltando para casa no final da tarde, parar para observar a loja de colchões que recentemente havia inaugurado em seu bairro. Pé direito duplo, vitrine imensa de vidro, lustre de cristais vermelhos. Coisa fina. Lá dentro, um homem - nem bonito nem feio - parecia explicar para a vendedora o modelo que procurava. Enquanto Carola admirava a parede de tom preto, imaginando se a cor ficaria bem em sua recém reformada sala, a dupla seguiu em direção ao colchão da vitrine. O homem então deitou, virou de um lado, experimentou de outro, ficou de bruços, mexeu o corpo, aconchegou-se em conchinha.

Carola ruborizou. Ela jamais exporia tamanha intimidade. Uma coisa é sair pela rua exibindo sacola de sex shop, meio gosto, meio marketing. Outra, é mostrar-se de verdade para os transeuntes. Dormir é coisa íntima, sinceridade para poucos, sem fingimento, performance ou manual indiano. É você ali, pá, escancarado e sem qualquer filtro.

Tamanho fora seu incômodo, que ela deixou a passos largos a parede preta para trás. Era amor, ela tinha certeza. Trinta segundos de ternura que viraram paixão, que evoluíram para amor. Nunca sentira isso.

No dia seguinte, voltou para a vitrine. Nada. Procurou aquele homem por uma semana. Nem sinal.

Carola ja experimentou de tudo um pouco, mas agora sua busca mudou. Ela quer beijos de bom dia com gosto de café, silêncios que não sejam constrangedores, escovas de dente encostando-se no banheiro, mensagens de amor às duas da tarde e roupa íntima pendurada no box. Alguém que a veja dormindo de meias no inverno, com pijama de algodão, cheiro de sabonete, placa de ATM nos dentes e ressonando de cansaço. De todas as tentações da vida, ainda falta sucumbir a uma delas: dormir de conchinha.

*Nurit Gil é uma paulista nos pampas gaúchos, formada em publicidade, mas nunca tendo exercido a profissão. Cronista de corpo e alma, a autora já trabalhou com vendas, marketing e foi mãe em tempo integral. Uma paixão? Nurit gosta de observar gente, escutar conversas, de preferência em ambientes abertos e com uma xícara de café. Sem chantilly. Semanalmente, publica nesta coluna suas impressões do cotidiano porto-alegrense. Nurit Gil está lançando seu primeiro livro, A SENHORA PERFEITINHA E OUTROS TEXTOS, em dois eventos no mês de novembro: na programação da FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE, haverá sessão de autógrafos no dia 15 de novembro, às 18h.

 

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Ensaio sobre a rotina: TERAPIA DE CASAL

por Nurit Gil .


"A vida é a arte do encontro,
embora haja tanto desencontro pela vida"
(Vinicius de Moraes)

- Boa tarde, eu sou a Dra. Clarissa.
- Olá, Fernanda.
- Prazer, Fábio.
- Por favor, sentem-se. Falem um pouco sobre vocês, o que os trouxe para a terapia?
- Na verdade, eu amo a Fê. Por mim, nem precisaríamos estar aqui.
- Eu adoro o Fá, temos uma boa relação.
- É...
- Estamos juntos há cinco anos.
- É...
- Fala também, Fábio. Só eu falo?
- Quem quis vir aqui? Hein? 
- Mas você aceitou.
- Por não aguentar mais escutar reclamações.
- Viu, Dra. Clarissa? Como você pode começar a notar, ele gosta de minar minha autoestima.
- Mas ela vive reclamando. Eu não mino sua autoestima, apenas sou sincero.
- Então porque não usa sua sinceridade para assumir que não me ama mais?
- Amo sim, mas...
- Mas?
- Não quero ter filhos agora. Ponto.
- Quando você quer? Quando eu tiver cinquenta anos?
- Eu preciso de um tempo. Quero avançar na carreira primeiro, me estabilizar...
- E o meu relógio biológico? Ah, esquece, não faz parte de sua planilha...
- Dra. Clarissa, ela acha que por eu não querer filhos agora, não a amo.
- E não é? E não é?
- Não!
- Tudo tem que ser do seu jeito, Fábio.
- Não é hora, Fernanda.
- Então faz um favor, pegue esta planilha onde você projeta cada passo da sua vida, suas roupas, sua escova de dentes e saia do meu lado de uma vez por todas!
A sessão acabou. Acertaram o valor e agendaram outro horário, embora ambos insistissem que não haveria próxima vez. Saíram porta afora, seguindo caminhos distintos.
Fábio ainda olhou para trás, a tempo de ver Fernanda firme em sua opinião, caminhando decidida. Era final do dia. E ela virou de volta para ele. 
No mês seguinte, estava grávida. 
Para Dra. Clarissa, voltaram apenas para explicar:
- Não era hora. Segundo minha projeção, seria para daqui a uns três anos. E sou muito racional, extremamente firme em meus argumentos.
- E o que o fez mudar de idéia?
- Os olhos dela. Ele brilham quando cai o sol.

*Nurit Gil é uma paulista nos pampas gaúchos, formada em publicidade, mas nunca tendo exercido a profissão. Cronista de corpo e alma, a autora já trabalhou com vendas, marketing e foi mãe em tempo integral. Uma paixão? Nurit gosta de observar gente, escutar conversas, de preferência em ambientes abertos e com uma xícara de café. Sem chantilly. Semanalmente, publica nesta coluna suas impressões do cotidiano porto-alegrense. Nurit Gil está lançando seu primeiro livro, A SENHORA PERFEITINHA E OUTROS TEXTOS, em dois eventos no mês de novembro: na programação do FEIRA ALÉM DA FEIRA 2014, o lançamento será na livraria Bamboletras, no dia 8 de novembro, a partir das 17h30, com atividades para crianças; e na FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE, no dia 15 de novembro, com sessão de autógrafos.

 

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Ensaio sobre a rotina: A SENHORA PERFEITINHA vai à Feira



Todos os seus sonhos se realizaram. Você está casada - amigada, enamorada ou qualquer variante da categoria - e agora carrega seu bebê no colo. Um momento lindo, tão esperado e repleto de emoções. Tudo perfeito, cor-de-rosa e azul-bebê, não fosse ela, a grande vilã do "e foram felizes para sempre": a vida real.

Em 'Senhora Perfeitinha', as situações tragicomicas da rotina 'mãe-esposa-mulher' são escancaradas em textos divertidos e rápidos. Da pra ler entre a troca de fralda e a mamada, entre deixar as crianças na escola e sair correndo para a reunião com o chefe ou até no banheiro, antes de alguém bater na porta com o habitual "manhê, você está aí?".

O clímax, você entenderá no final, mas eu posso adiantar pra matar a curiosidade: não, não acontece só na sua casa!


Isso é apenas um aperitivo: o prato principal será servido no próximo dia 15 de novembro, às 18h, no pavilhão de autógrafos da Feira do Livro de Porto Alegre. É a estreia de nossa querida cronista Nurit Gil na Literatura: A Senhora Perfeitinha e outros textos reúne crônicas diversas sobre a vida da mulher moderna, bem aos moldes dos textos que têm encantado os leitores do blog da Sapere Aude! Livros em sua coluna semanal Ensaio sobre a rotina. O convite está feito: apareça lá para prestigiar nossa cronista. E quem desejar já encomendar o seu exemplar do livro, pode enviar um e-mail para a Sapere Aude! Livros, parceira da Buqui, editora que publica o livro de Nurit Gil: info@sapereaudelivros.com.br.



*Nurit Gil é uma paulista nos pampas gaúchos, formada em publicidade, mas nunca tendo exercido a profissão. Cronista de corpo e alma, a autora já trabalhou com vendas, marketing e foi mãe em tempo integral. Uma paixão? Nurit gosta de observar gente, escutar conversas, de preferência em ambientes abertos e com uma xícara de café. Sem chantilly. Semanalmente, publica nesta coluna suas impressões do cotidiano porto-alegrense e da vida da mulher moderna.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Ensaio sobre a rotina: TEMPERO À PARTE

 por Nurit Gil



Cada pessoa utiliza seu método peculiar de relaxamento. Não vou criticar os adeptos do Rivotril sublingual afinal, eu mesma utilizo métodos pouco ortodoxos para deixar os pensamentos em slow motion - depois de abandonar anos de vida fumante, não abro mão da boa e velha dose etílica noturna. Mas acho interessante observar as formas mais criativas que cada um encontra para separar as obrigações do lazer.

Tem que mateie. Sim, verbo: eu mateio, tu mateias, ele toma chimarrão. Há os que espantam o stress levantando centenas de quilos em troca de suor e músculos. Tem quem leia ou escreva. Os que vão ao cinema e escolhem o filme (prática que desconheço há anos). Já ouvi falar de gente que só com sexo recreativo. Quem faça compras, escova, massagem. E os que utilizam métodos ainda menos ortodoxos que os meus.

Conheci uma moça que precisava sair do trabalho e apaixonar-se antes de voltar da casa. Batia o cartão e passava a buscar uma paixão. Lembro da noite em que apaixonou-se por uma escritora baiana, em plena sessão de de autógrafos na livraria da Alameda Santos. Entrou, pediu uma dedicatória, leu o livro inteirinho, voltou para casa e dormiu arretada. Às vezes, tinha que dar explicações ao marido:

- Onde estava até esta hora?

- Procurando paixão.

Vícios são vícios e ele a aceitava como sempre fora, apesar de certa frustração. Ela já tinha se apaixonado por tulipas holandesas, café gourmet do serrado, mostra de cinema russo e pasta americana para cupcakes.
Uma vez, saímos para colocar o papo em dia. Entardecia. A certa altura, eu já bocejava e cogitava pedir a conta, mas ela ainda estava aflita em sua busca. Releu o cardápio, procurou algo nas mesas ao lado. Nada. Saímos pelo quarteirão, uma companhia de teatro alternativa fazia uma performance no farol. Olhei entusiasmada para minha amiga: sem calafrios. Na esquina, o lançamento de um empreendimento imobiliário. 'Quer parar?'. 'Os sinos não tocaram'. Desistimos. Ela voltou para casa, já pronta para passar a noite em claro, com os pensamentos a mil. Mas neste dia, o marido a esperava na sala. Seu coração disparou de alegria e alívio: estava apaixonada, incrivelmente seduzida.

- Precisamos conversar.

Ela, louca por ele, escutou a história. Ele, por um viés da vida, conheceu uma escritora. Baiana. E estava apaixonado. Ela ofereceu cozinhar tapioca. Não era isso. Com acarajé e dendê. Não era fugaz. E ele partiu. Já faz alguns anos. Ela buscou tratamento, recuperou-se de seu irônico destino e hoje não corre mais riscos. Sai do trabalho e segue direto para casa. Cozinha, assiste a novela e antes de dormir, um relaxante sublingual. Sem café do serrado, cinema russo ou dendê. Para que a vida siga como deve ser.


*Nurit Gil é uma paulista nos pampas gaúchos, formada em publicidade, mas nunca tendo exercido a profissão. Cronista de corpo e alma, a autora já trabalhou com vendas, marketing e foi mãe em tempo integral. Uma paixão? Nurit gosta de observar gente, escutar conversas, de preferência em ambientes abertos e com uma xícara de café. Sem chantilly. Semanalmente, publica nesta coluna suas impressões do cotidiano porto-alegrense.








quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Ensaio sobre a rotina: FELIZES PARA SEMPRE

por Nurit Gil

- O que você viu em mim?

- Como assim?

- Eu lá, deitada no meio da floresta encantada, cercada por um monte de anões. O que te fez parar e me beijar?

- Sua pele, seu ar angelical...

- Sem ser piegas.

- Mas é sério. Você deve estar naqueles dias.

- Não tem nada a ver com os meus hormônios. Só estava pensando...

- Em que?

- Se você não tivesse aparecido.

- Você nunca teria aberto os olhos.

- Claro que teria. Ou você acha que existe algum veneno que passe com beijo? Era provisório.

- Pode ser. Então você estaria agora cozinhando para sete anões.

- Ou teria abraçado uma causa nobre.

- Que?

- Sim, como a defesa dos mineradores.

- Sindicalista?

- Talvez. Ou uma ONG para defesa dos animais.

- Peraí. Você está dizendo que trocaria sua vida de princesa encantada pelos afazeres de uma casa compacta e as tardes passadas conversando com coelhos?

- Você não entende.

- Não, definitivamente. São três cozinheiros, duas damas de companhia e uma ama de leite para as crianças. Banquetes, festas de gala, jóias do reino e glamour. Tudo isso versus uma ONG?

- Glamour, glamour, glamour. Só isso importa?

- Foi o que te propus em cima do cavalo branco.

- Estou numa fase de repensar a vida.

- Então faça o seguinte: repense. Se preferir, saia palácio afora hasteando sua bandeira e defendendo sua causa. 

O príncipe Kent saiu batendo as portas do aposento real.

E Snow White abriu a gaveta de sua cômoda, pegou o Rivotril e engoliu com Sidra. Nunca gostara de espumante francês. 


*Nurit Gil é uma paulista nos pampas gaúchos, formada em publicidade, mas nunca tendo exercido a profissão. Cronista de corpo e alma, a autora já trabalhou com vendas, marketing e foi mãe em tempo integral. Uma paixão? Nurit gosta de observar gente, escutar conversas, de preferência em ambientes abertos e com uma xícara de café. Sem chantilly. Semanalmente, publica nesta coluna suas impressões do cotidiano porto-alegrense.

























quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Ensaio sobre a rotina: MUDANDO O MUNDO

por Nurit Gil 

Clara estava animada com aquele convite. Reencontraria a turma da faculdade após dez anos e finalmente conversaria sobre assuntos interessantes entre pessoas que pensavam como ela.

Nos últimos tempos, seus amigos passaram a ser os pais dos amigos de seus filhos, pessoas cujas afinidades resumiam-se a dissertar sobre a didática da professora, a linha pedagógica do colégio, a malignidade do glúten e a mãe do Fabio que não tinha vergonha na cara. Era isso: ela pensava em seus filhos vinte e quatro horas por dia e sua vida social também resumia-se a manifestos maternos.

Com a premissa de comemorar as bodas da formatura, finalmente seria despertada a Clara que levantava bandeiras, que devorava livros em cuja capa não constavam barrigas de nove meses, que discorria sobre assuntos culturais diversos e que cantarolava músicas da Adriana Calcanhoto ao invés da Partimpim. Sabia que, da antiga turma, poucos sequer estavam casados e certamente mantinham o ar reacionário de outrora, tempo em que ela também avaliava seriamente a possibilidade de mudar o mundo. Até conhecer o Rodrigo, casar, engravidar, fazer cursos de papinhas orgânicas e mudar o seu mundo.

No dia do encontro, Rodrigo ficara encarregado de cuidar das crianças e, ainda beliscando-se para checar a veracidade do momento, Clara bateu a porta de casa e saiu. Voltou horas depois, um pouco antes da meia-noite.

- Já?

- Sim. Acredita que hoje em dia tem trânsito neste horário?

- Como foi o encontro?

- Demais!

E discorreu sobre a emoção de rever antigos amigos, sobre como pouco haviam mudado. Discutiram sobre os tempos atuais, relacionaram Maquiavel com Simone de Beauvoir, Baudelaire com Valeska Popozuda e pré-sal com festa rave. Um pouco depois do início da animada conversa, chegou a Julia, pedindo desculpas pelo atraso e já dando as boas novas: estava grávida. Todos ficaram felizes, brindaram com seus copos de cachaça enquanto a gestante pedia uma água sem gás. Clara mal pôde conter a emoção. Chamou Julia para sentar a seu lado e iniciaram uma animada conversa sobre enjôos matinais, planos de parto e peças indispensáveis no enxoval. Como a conversa dos demais estava muito alta, elas logo mudaram-se para outra mesa, na ala de não fumantes. Ainda pediram um café descafeinado antes de despedirem-se do resto do pessoal que àquela altura, falava sobre sei lá o quê. Na saída, combinaram de encontrarem-se novamente. Tinham muitos assuntos em comum e de fato, Clara ainda precisava falar com ela sobre sobre linhas pedagógicas, a malignidade do glúten e, quem sabe, apresentá-la para as mães dos amigos de seus filhos.


*Nurit Gil é uma paulista nos pampas gaúchos, formada em publicidade, mas nunca tendo exercido a profissão. Cronista de corpo e alma, a autora já trabalhou com vendas, marketing e foi mãe em tempo integral. Uma paixão? Nurit gosta de observar gente, escutar conversas, de preferência em ambientes abertos e com uma xícara de café. Sem chantilly. Semanalmente, publica nesta coluna suas impressões do cotidiano porto-alegrense.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Ensaio sobre a rotina: DAMA, REI E CURINGA

por Nurit Gil


Celso e Isabel estavam juntos há mais de vinte anos e eram, um para o outro, uma agradável companhia para passeios vespertinos, matinês no cinema, além da tradicional macarronada de domingo em família. Novidade não havia, mas viviam plácidos o dia-a-dia. Como seus filhos já não passavam muito tempo em casa, costumavam organizar encontros com casais amigos para animados campeonatos de tranca. Nestas ocasiões, o furor competitivo dos participantes era instigado.

- Celso, você tinha um valete.

- Mas que nada. Bati direto.

- Levante, quero ver se não escondeu a carta.

- O que Aurélio? Está duvidando da minha idoneidade?

E a testosterona reprimida nas matinês dos filmes água com açúcar ficava evidente na sala do apartamento anfitrião, fazendo tremer os bibelôs da mesinha de canto. As esposas corriam para acalmar os ânimos, oferecendo água com açúcar e repetindo a recomendação médica "Olha o coração, olha o coração". A não ser Isabel. Algumas mulheres até achavam que seu sorriso de canto exibia certo prazer:

- Isabel, o Celso vai ter um troço.

- Não vai não, ele está bem.

Naquelas noites, Isabel enxergava um traço neandertal em Celso e por isso, ela sempre tratava de cuidar para que houvesse café passado na térmica, petit-fours doces na sala e lingerie preta sob a roupa. Como os casais jogavam em dupla, ela, vez ou outra, para quebrar a monotonia, descartava um curinga:

- Isabel, você viu a carta que você jogou?

- Ai, Celsinho, foi sem querer.

- Ah, mulher, faça me o favor!

Celso batia nervoso na mesa. Isabel sorria de canto. A noite prometia.

Acontece que, com o passar dos anos, os filhos casaram e os netos começaram a chegar. A família voltou a frequentar a casa de Celso e Isabel e, bastava eles pensarem em agendar um campeonato, para o telefone tocar:

- Mãe, você pode cuidar da Julinha este sábado?

Ninguém entendeu quando Celso arrumou as malas e saiu de casa.

- Deve ter arrumado outra.

- Pobre Isabel.

E o tempo passou.

Celso, da euforia inicial de homem livre, leve e solto, passara à reclusão. Saia pouco e os amigos apostavam quem se tinha abandonado a esposa por outra, agora já estava sozinho.

Um dia, o telefone de Isabel tocou:

- Bel?

- Celso? 

- Eu...

- Como você tem coragem de me ligar?

- Bel, deixa eu falar... Vamos nos encontrar.

- Nunca mais me ligue.

- Um passeio vespertino?

- Me esqueça.

- Estreou um filme ótimo...

- Passar bem.

- Tem aquele restaurante...

- Adeus.

- Uma partida de tranca?

Isabel não conseguiu resistir ao convite. E depois de descartar dois curingas eles tiveram certeza: eram dama e rei do mesmo naipe. E bateram direto. 


*Nurit Gil é uma paulista nos pampas gaúchos, formada em publicidade, mas nunca tendo exercido a profissão. Cronista de corpo e alma, a autora já trabalhou com vendas, marketing e foi mãe em tempo integral. Uma paixão? Nurit gosta de observar gente, escutar conversas, de preferência em ambientes abertos e com uma xícara de café. Sem chantilly. Semanalmente, publica nesta coluna suas impressões do cotidiano porto-alegrense.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

ENSAIO SOBRE A ROTINA: De 2014 para 1968

por Nurit Gil



Queridas mulheres,
 
Amanhã vocês participarão de um concurso de miss e, como forma de protesto à situação da mulher, planejam queimar soutiens. Por isso escrevo esta carta, direto do futuro, para contar: 
 
O tiro saiu pela culatra!
 
Pois é. Sei que a intenção de vocês é das melhores, que é insustentável nossa situação oprimida numa sociedade machista e tal. De fato, conquistamos direitos, postos de trabalho e nem sempre somos chamadas de histéricas quando opinamos de forma contundente. Sim, opinamos e isso é um ganho e tanto.
 
Mas mesmo com toda esta transformação na sociedade, acreditem: nossas casas continuam sujando, pastas de dentes ainda não proliferam por osmose nos armários, filhos não se criam sozinhos e maridos pedem canja quando estão doentes. Mas agora, nós temos que trabalhar para complementar a renda familiar. Não somos artistas, vanguardistas ou idealistas. Somos proletárias. Batemos cartão, temos metas e almoçamos com ticket refeição. Enquanto isso, lá em casa, a roupa acumula, a funcionária não apareceu, ainda bem que sua mãe tirou o dia para cuidar do bebê, a pasta de dentes acabou e terá pizza congelada para o jantar. Culpa aqui e culpa lá. Freud jamais poderia sonhar com tamanha popularidade no século XXI.
Vocês devem estar se perguntando: e os homens? Ajudam mais, mudaram sim. Mas ainda detestam trocar fraldas, não tem glândulas mamárias e apesar de terem virado gourmets, raramente sabem que para o arroz ficar soltinho, precisa ser cozido em fogo baixo. Fora que, conviver com uma parceira poderosa ao lado, não é coisa pra qualquer macho.
 
Entendem? Está tudo atrapalhado. Claro que existem mulheres felizes com esta situação toda, mas, se vocês não queimarem os soutiens, elas serão a vanguarda de nossa classe. Um título interessante. Quanto ao resto de nós, deixem-nos trocar receitas de ovo poche, levar nossos filhos na escola e fazer artesanato. Sem peso na consciência. Se der, trabalharemos meio período. Um plus. E usaremos o dinheiro extra para algo que não seja bancar babá, foguista, enfermeira e motorista.
 
Sei, sei, tem a questão dos padrões de beleza impostos. Então deixa eu contar: vocês terão descendentes intitulando-se mulheres-morango, melancia e jaca. Se o nome não for auto explicativo, eu esclareço: deu mesmo tudo errado! Até nós, mais básicas e pós-graduadas sabemos que 250ml de silicone ficam super proporcionais, que o blush da MAC é incrível e todos as demais artimanhas sensuais.
 
É século XXI, mas homens ainda gostam de bunda, mulheres ainda não gostam de dividir a conta e crianças ainda passam a primeira infância gritando do banheiro "Manhê, acabei!".
 
Portanto, amanhã, peço singelamente: desfilem. Mandem beijos. Ou fujam do padrão - individualmente, sem rebeldia - desde que fiquem graciosas para a história. Porque nós, do futuro, não estamos dando conta de tudo-ao-mesmo-tempo-agora.



*Nurit Gil é uma paulista nos pampas gaúchos, formada em publicidade, mas nunca tendo exercido a profissão. Cronista de corpo e alma, a autora já trabalhou com vendas, marketing e foi mãe em tempo integral. Uma paixão? Nurit gosta de observar gente, escutar conversas, de preferência em ambientes abertos e com uma xícara de café. Sem chantilly. Semanalmente, publica nesta coluna suas impressões do cotidiano porto-alegrense.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

ENSAIO SOBRE A ROTINA: Novecentos e noventa e nove

por Nurit Gil

- De novo não.
- O que foi?
 - Essa sua mania irritante de apertar o tubo da pasta de dente no meio.
 - Espera, eu sou um marido nota mil, carinhoso, presente, fiel e você vai fazer cena por causa da pasta de dente?
- Nota mil?
- É, nota mil.
- Vamos começar: só sai para jantar se for no mesmo restaurante, novecentos e noventa e nove, não suporta minhas tias, novecentos e noventa e oito, sai para jogar poker com os amigos toda quinta-feira, mesmo que eu esteja de cama, novecentos e noventa e sete...
 - Falando nisso, quando é que você não está de cama?
 - Que?
 - É. Adoro você na cama, desde que não esteja reclamando.
 - Eu tenho enxaqueca, você sempre soube disso.
 - E eu gosto de sentar na mesa quinze do Printz, você sempre soube disso.
 - Sim, e comer aquela maldita mostarda para passar três dias com azia.
 - E te ver três dias bufando ao invés de me preparar uma canja. O que me leva....
 - A que? A que? Quero saber.
 - À sua completa inabilidade na cozinha.
 - Poupe-me de preparar canja e desfiar frango.
 - Poupo-te sim, mas arrozinho com bife grelhado seria o mínimo.
 - Algum dia te enganei? Algum dia disse: "case comigo e sinta-se o rei Momo?"
 - Mas dez anos de lasanha congelada não somam pontos a seu favor.
 - E o que você acha de escutar, há dez anos, em todas as refeições de família: "hoje tem o pavê da mãe? Mas é "pavê" ou "pacomê"?
 - Pelo menos minha mãe prepara pavê para mim.
 - E esfrega na minha cara que soube prender o marido pelo estômago.
 - Agora o problema é minha mãe?
 - Agora?
 - Mamãe não, mamãe não...
 - Você faz isso desde que nos conhecemos,
 - Faço o que?
 - Inverte. Transforma as minhas reclamações em suas,
 - Amor...
 - É verdade, é verdade, não vem dizer que não.
 - Lembra quando nós conhecemos?
 - Não muda de assunto.
 - Aquele mar, aquela praia.
 - Hum.
 - Você deslumbrante num biquini branco.
 - E você galanteador.
 - Pois é.
 - Perfumado.
 - Sempre.
 - Oferecendo-se para passar protetor solar nas minhas costas.
 - Foi meu charme.
 - Eu deveria ter percebido.
 - O que?
 - Quando você apertou o tubo.
 - Por que?
 - Foi no meio.


*Nurit Gil é uma paulista nos pampas gaúchos, formada em publicidade, mas nunca tendo exercido a profissão. Cronista de corpo e alma, a autora já trabalhou com vendas, marketing e foi mãe em tempo integral. Uma paixão? Nurit gosta de observar gente, escutar conversas, de preferência em ambientes abertos e com uma xícara de café. Sem chantilly. Semanalmente, publica nesta coluna suas impressões do cotidiano porto-alegrense.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Ensaio sobre a rotina: VARAL BEGE

por Nurit Gil



Da janela da área de serviço, conseguia enxergar o que se passava no apartamento dos vizinhos. Era a parte lateral do pequeno edifício e onde encontravam-se os estendedores de roupas do 101 ao 804.

Sabia, por exemplo, que a vizinha do 502 era artista, pelos aventais manchados de tinta. O casal do 404 era metódico, combinavam sempre os pijamas e a roupa de cama. O estendedor na janela do senhor do 704, quase sempre vazia, denunciava que ele devia mandar as roupas para uma lavanderia ou simplesmente, a esta altura da vida, tinha desistido de cheirar a sabão em pó. A vizinha ruiva do 303 - intrigante - lavava apenas lingerie. A família do 201 tinha acabado de aumentar. O rapaz do 703 terminara um relacionamento. O extravagante músico do 803 misturava roupas coloridas às brancas na máquina de lavar. A senhora de meia idade do 202 aumentara consideravelmente o tamanho dos seios. Os recém casados do 401 eram fãs de chantilly. E Ana imaginava se os vizinhos também conseguiam desvendar pequenos detalhes da vida dela analisando seu varal, monótono, coberto de roupas de tom bege.

O curioso, no entanto, é que apesar da intimidade exposta no edifício Saint Tropez, os vizinhos cumprimentavam-se apenas com um aceno de cabeça e no máximo um "Esfriou, né?" ao cruzarem-se nos corredores, no elevador ou na garagem. Sabiam a cor da roupa íntima que o outro usava, detalhes de sua vida privada, de sua situação estomacal, mas não ousavam cruzar a barreira do manual politicamente correto da impessoal vida em cidade grande:

- Olá.

- Boa noite.

- Tchau.

- Até mais.

Então chegou o dia da reunião de condomínio, que ocorria a cada seis meses sempre convocada pelo síndico, o senhor de poucas roupas no varal. Ana desceu de roupa bege e um rabo de cavalo, exatamente como seu varal sugeriria a um vizinho mais atento. Foi lida a pauta do encontro e, após definirem repintar o teto azul do hall, podar o Ficus da entrada e escolher um local apropriado para o carrinho de compras, abriram o espaço para assuntos gerais. O rapaz do 703 começou:

- Temos vizinhos que não respeitam o horário de silêncio...

- Ih começou!

- Sim, comecei. Gosto de dormir cedo.

- Cara, é minha profissão. Pior você, que não recolhe as necessidades de seu cão na calçada.

A senhora dos seios grandes entrou no debate:

- Não critiquem os animais, não critiquem os animais.

- Ah é, minha senhora? E seu papagaio que imita o som de assoar o nariz?

- Imita do vizinho de cima.

- Eu?

- Sim. Poderia ser mais silencioso, não?

- Minhas intimidades não dizem respeito a você.

E os ânimos começaram a se exaltar. Levantaram-se, xingaram gerações anteriores e futuras, apontaram o dedo para imperfeições diversas. Ana permanecia observando. Até que pisaram em seu calo:

- Culpa da vizinha bege!

- Eu?

- Sim. Sua cantoria no banheiro é absolutamente irritante.

- Irritante é olhar suas calcinhas minúsculas e multicoloridas dia após dia!

- Invejosa!

- Exibida!

No instante seguinte, estavam rolando pelo chão, puxando os cabelos uma da outra. A vizinha da lingerie teve um apoio maciço do público masculino, o que deixou a noiva do 401 visivelmente alterada (provavelmente esta noite não teria chantilly). O síndico pediu a palavra:

- Agradeço a presença de todos, mas já são dez da noite. Assuntos pendentes serão tratados na próxima reunião e assim, dou por encerrado este encontro.

Todos levantaram-se, pegaram seus pertences e saíram porta afora. Dividiram o corredor e o elevador como desconhecidos, com rostos plácidos e seguindo o protocolo politicamente correto da vida em cidade grande, despediram-se:

- Boa noite.

- Tchau.

Ana entrou em seu apartamento e foi direto recolher as roupas do varal. 'Vizinha bege' era demais, a sirigaita do 303 que aguardasse a próxima reunião. E até mais. 

*Nurit Gil é uma paulista nos pampas gaúchos, formada em publicidade, mas nunca tendo exercido a profissão. Cronista de corpo e alma, a autora já trabalhou com vendas, marketing e foi mãe em tempo integral. Uma paixão? Nurit gosta de observar gente, escutar conversas, de preferência em ambientes abertos e com uma xícara de café. Sem chantilly. Semanalmente, publica nesta coluna suas impressões do cotidiano porto-alegrense.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Ensaio sobre a Rotina: ENCONTRO

Por Nurit Gil
- Que olhos lindos!
- Obrigada.
- O que você acha deste restaurante?
- Muito bom. E fica perto daquela praça, que eu amo.
- Ah é?
- Sim. Gosto de caminhar lá após o almoço, antes de retornar ao trabalho. O verde me relaxa.
- Que coincidência. Eu adoro este bairro também. Costumo sentar aos finais de tarde, afrouxar a gravata e observar o movimento antes de voltar para casa.
- Verdade?
- Sim. Puxa, que olhos!
- E eu adorei seu perfume.
---
- Nosso pedido chegou. Parece bonito seu peixe.
- Parece, né? Tenho evitado carne vermelha e carboidratos à noite.
- Por que?
- Para ficar mais saudável e... elegante.
- Mais elegante? Impossível.
---
- Quer sobremesa?
- Não sei se devo...
- Dividimos um mousse.
- De chocolate amargo?
- Meu preferido! Mais uma coincidência.
---
- Vamos? Vou pedir o carro...
- Sim. Nossa, que perfume!
- Que olhos!
- Obrigada.
- Adorei a noite.
- Eu também. Quando chegarmos em casa, vamos dispensar a baby sitter e tentar não acordar as crianças.
- Tá. Você viu que deixei uma camisa manchada que precisava ir para a lavanderia?
- Sim. Falando nisso, coloquei a conta de luz em cima da mesa de entrada.
- Não vi.
- Vence amanhã.


*Nurit Gil é uma paulista nos pampas gaúchos, formada em publicidade, mas nunca tendo exercido a profissão. Cronista de corpo e alma, a autora já trabalhou com vendas, marketing e foi mãe em tempo integral. Uma paixão? Nurit gosta de observar gente, escutar conversas, de preferência em ambientes abertos e com uma xícara de café. Sem chantilly. Semanalmente, publica nesta coluna suas impressões do cotidiano porto-alegrense.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Ensaio sobre a rotina: CAMEMBERT VERDE E AMARELO

por Nurit Gil

A partir de hoje, sou francesa. Não quero que meus filhos façam manhã e pretendo terminar as refeições com queijos.

Antes de entrar na maternidade, olhava para aquelas crianças berrando no supermercado por causa de um iogurte ou jogando queijo ralado no suco de laranja em pleno restaurante, diante de pais condescendentes com olheiras e pensava: "Ah, quando eu for mãe...".

Pronto. Sou mãe. E para a surpresa das minhas convicções, meus filhos já protagonizaram caos em supermercados,  jogaram farinha no chá gelado, enquanto eu - que sim educo, imponho limites e criei as 'regras da casa by Super Nanny' - estimulava:

- Isso, joga um pouquinho mais de farinha e depois ainda tem o sal. Daqui a pouco eu acabo de almoçar e podemos sair correndo.

Já me flagrei pensando em qual momento meus planos foram por água abaixo e finalmente, um sucesso editorial me trouxe a resposta: é tudo culpa da educação brasileira. Portanto, além de termos em nossa herança cultural a caipiroska de seriguela, somos exageradamente protetoras e entramos no mundo de nossos filhos ao invés de trazê-los ao nosso. Exótico. 

Acabou o xixi? Peraí que estou indo arrumar sua cueca.

Não gosta de tomate? Mamãe te faz macarrão com bifinho. 

Quer brincar de princesa? Eu brinco.

Quer brincar de monstro? Vou te pegar!

Descalço não, aqui estão a meia e o sapato. Dá o pezinho.

Quer fazer uma tatuagem de canetinha na minha mão? Pequena, tá?

Programação do final de semana? Quatro festas infantis.

Vamos comer fora? Naquele restaurante com recreação e batata frita.

Acontece que, além do papel de super mãe, também gosto de sentar no sofá, com os pés para cima e os olhos fechados, adoro comida indiana e filmes não indicados para menores de doze anos. Só que com um detalhe: sem culpa.

Desta forma e com a solução para o equilíbrio pronta, simples e debaixo do meu nariz, resolvi adotar a técnica:

- Mãe...

- Oui.

- O que tem de sobremesa?

- Camembert.
- Ah, não pode ser danoninho?

- No.

- Por favor....

- Está bem vai, é petit suisse. Traz que eu te dou na boca.

*Nurit Gil é uma paulista nos pampas gaúchos, formada em publicidade, mas nunca tendo exercido a profissão. Cronista de corpo e alma, a autora já trabalhou com vendas, marketing e foi mãe em tempo integral. Uma paixão? Nurit gosta de observar gente, escutar conversas, de preferência em ambientes abertos e com uma xícara de café. Sem chantilly. Semanalmente, publica nesta coluna suas impressões do cotidiano porto-alegrense.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Ensaio sobre a rotina: IDEOLOGIA: APLICAÇÃO PRÁTICA

por Nurit Gil



"Se beber, não dirija"
(Sabedoria popular)

- Alguém escutou a campainha?
O papo estava tão animado, que não sabiam ao certo se o som era real ou fruto da imaginação, após alguns - vários - goles de espumante. Eram três casais que organizavam encontros sempre divertidos. Pediam pizza, bebiam, gargalhavam. Falavam sobre as ações, a novela e abobrinhas em geral, antes do papo das mulheres invariavelmente recair sobre o trio casa-filhos-empregada. Todos casados havia mais de uma década, tinham uma relação agradável desde os tempos de namoro, quando os meninos eram colegas na faculdade de engenharia mecânica. Primeiro a Renata conheceu o Rubens, depois a Paula encantou-se pelo Roger e por último, a Cristina conquistou o Julio. Pena mesmo era o Marco, que fora passar uma temporada na Europa e acabara ficando do lado de lá do oceano. Justamente por isso, esta noite seria diferente: finalmente o quarteto estaria completo e as esposas conheceriam o famoso dissidente da turma.
- Acho que tocou sim.
- Deve ser o Marcão.
Julio, o anfitrião da vez, foi abrir a porta
- ...
- Fala cara!
E todos levantarem-se. A comoção foi geral. Não se viam desde... nossa, uns quinze anos. Abraçaram-se, apresentaram a Rê, a Pá e a Cris. 
- Senta. Que saudades. O tempo não passou para você!
- Passou, passou tão rápido que nem percebi
Marco de fato parecia não ter sentido a passagem do tempo. Sua pele tenaz e a barba por fazer conferiam a ele uma aparência bem jovem. Demais até.
- E o que você tem feito?
- Passei os últimos cinco anos viajando pelo continente africano, defendendo algumas causas importantes...
E o recém-chegado passou a hora seguinte discorrendo sobre a guerra, a miséria e as campanhas humanitárias. E - fato intrigante - sequer escutaram a voz das mulheres.
Na realidade, Paula estava corada, Renata não sentia as pernas e Cristina ainda não tinha conseguido piscar os olhos. Quando a pizza chegou, seguiram direto para a cozinha onde, pela primeira vez na última hora, trocaram algumas palavras:
- Que homem é esse?
- Que homem!
- Uau!
Retocaram o gloss, arrumaram os cabelos, encolheram a barriga e voltaram para a sala.
No encontro seguinte, insistiram para que convidassem o Marco. Afinal, ele ainda tinha muito a discorrer. E as noites passaram a ser cada vez mais elaboradas. A pizza virou bruscheta de berinjela, o gloss virou sapato de tecido eco-sustentável e o casa-filhos-empregada, utopia-humanitária-hypster. O novo anfitrião, cada vez mais à vontade, ignorava todos o protocolos da classe média. 
Na segurança da cozinha, as mulheres cada vez mais apaixonadas. 
Não apaixonadas, encantadas. 
Não encantadas, intrigadas.
E discorriam sobre todo o tipo de papo normalmente reservado a banheiros femininos. Não podiam furtar-se de trair em pensamento, imaginando a vida ao lado daquele ser de charme intelecto-neandertal, comendo tofu no café da manhã, amando loucamente segundo os preceitos do tantra e discutindo política em mesas de botecos, dentre outros pormenores fantasiosos.
Uma noite, Marco anunciou que traria sua nova namorada, Luciclei.
- Luciclei?
- Ahã. O que tem? - Perguntou Julio.
- Não, nada.
Quando abriram a porta, Luciclei apareceu, de mini vestido vermelho, cabelo loiro platinado pela cintura e risada extravagante. Durante a noite, discorreu sobre a novela, a nova namorada do Rodrigo Santoro e como evitar rasgos em meia calças. Todos apenas escutavam.
Na realidade, Julio estava corado, Rubens não sentia as pernas, Roger ainda não tinha conseguido piscar os olhos e Marco não desviava o olhar do decote vermelho. Foram apenas interrompidos com um bate-papo vindo diretamente da cozinha. Achavam ter escutado "logo o Marco".
- Que?
- Nada, é que o risoto de pupunha queimou.
- Queimou?
Foi quando Cristina reapareceu, já de pantufas:
- Pois é. Todos comem pizza de catupiry?

*Nurit Gil é uma paulista nos pampas gaúchos, formada em publicidade, mas nunca tendo exercido a profissão. Cronista de corpo e alma, a autora já trabalhou com vendas, marketing e foi mãe em tempo integral. Uma paixão? Nurit gosta de observar gente, escutar conversas, de preferência em ambientes abertos e com uma xícara de café. Sem chantilly. Semanalmente, publica nesta coluna suas impressões do cotidiano porto-alegrense.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Ensaio sobre a rotina: BRIE COM MEL

por Nurit Gil

No jantar...
- E ponto. Foi o que respondi.
- Ahã.
- Ahã?
- É. Por que?
- Eduardo, como 'por que'? Você não entendeu a sagacidade do meu comentário? O tom, a pontuação, o timing. Elementos que fizeram a minha resposta ser absolutamente hilária.
- É?
- Você só pode estar perdendo sua tenacidade intelectual
- Você acha mesmo?
- Sim. Você não entende mais as minhas piadas
- Claro que entendo. Simplesmente não achei graça
- Não é graça. É humor inteligente, para refletir e não simplesmente responder com grunhidos.
- Ana Paula, você estava me contando a resposta que deu. Eu entendi. Desculpe não estar refletindo.
- Antigamente você admirava minha perspicácia. Aplaudiria esta mesma resposta e complementaria com "é por isso que eu te amo".
- Ana...
- Costumávamos completar as frases um do outro. Éramos como brie com mel, pastel com caldo de cana, goiabada com queijo.
- Estou apenas cansado, o dia foi puxado. Não é uma crise conjugal, por favor, não exagere.
- E hoje somos como, como...
- Como?
- Manga com leite, churrasco com Chardonay, seu sistema digestivo com azeite de Dendê.
Eduardo caiu na gargalhada. Não conseguia segurar o riso. O tom, a pontuação e o timing tinham sido perfeitos.
- O que foi Eduardo? É sério. Qual a graça?
Ele pensou em responder "é por isso que eu te amo". Mas o dia fora longo.
- Nada. Passa o sal?

*Nurit Gil é uma paulista nos pampas gaúchos, formada em publicidade, mas nunca tendo exercido a profissão. Cronista de corpo e alma, a autora já trabalhou com vendas, marketing e foi mãe em tempo integral. Uma paixão? Nurit gosta de observar gente, escutar conversas, de preferência em ambientes abertos e com uma xícara de café. Sem chantilly. Semanalmente, publica nesta coluna suas impressões do cotidiano porto-alegrense.