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segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Lendo Fantasia: A MATRIZ DE MATRIX

Cover of "Total Recall"
Total Recall
por Patrícia Degani

Is this the real life? Is this just fantasy?
(Queen, Bohemian Rapsody, 1975, do álbum A Night at the Opera

 Um dos temas mais perturbadores da literatura fantástica é a possibilidade de que nossa vida não seja real - que tudo não passe de um sonho ou simulacro. Um dos principais escritores do gênero que exploram essa possibilidade é Philip K. Dick. Um exemplo é o filme O Vingador do Futuro (Total Recall, 1990, Paul Verhoeven), baseado no seu conto We Can Remember It for You Wholesale. No filme original, estrelado por Arnold Schwarzenegger, um operário decide fazer um implante de memória para escapar da rotina. Em nenhum momento do filme sabemos se o implante funcionou ou não, se a seqüência de eventos se passa na mente do protagonista ou de fato aconteceu. 

Blade Runner Se considerarmos que nossas memórias são parte indissociável do nosso eu, como afirmava Santo Agostinho nas Confissões e como tristemente confirmamos ao conhecer alguém que sofre de Alzheimer, não ter certeza de suas memórias tem um efeito devastador na psique. Ora, nossas lembranças são mesmo, em parte, inventadas: são impressões psicológicas profundas geradas por determinados fatos na nossa vida. Se não tivermos outras testemunhas e não pudermos comfrontá-las com registros, como ter certeza da veracidade das nossas recordações? Quantas vezes todos nós já fomos surpreendidos por descobrir que temos uma memória falsa do ponto de vista dos fatos, porém intensamente emocional? Você poderia jurar que usava um casaco rosa quando ganhou aquele presente especial de Natal, mas quando vê a foto no álbum da família, descobre que está de blusão amarelo...entretanto, se soubéssemos que todas nossas recordações não passam de uma ilusão, entraríamos em crise. A possibilidade de forjar uma personalidade com memórias artificiais é retratada nos andróides do filme Blade Runner - O Caçador de Andróides (1982, dirigido por Ridley Scott, baseado em Do Androids Dream of Electric Sheep? de Philip K. Dick). 

Cover of the Brazilian release, depicting the ...E o que dizer dos sonhos? No violento animê O Fantasma do Futuro (Ghost in the Shell - Kôkaku kidôtai, 1995, de Mamoru Oshii) uma policial andróide enfrenta um perigoso criminoso com o sugestivo nome de Puppet Master (Titereiro, ou mestre das marionetes). Se as memórias são fabricadas, podem ser construídas por um terceiro que nos manipularia como marionetes. Futuros distópicos com interações homem/máquina nas quais não se sabe mais quem é o quê são recorrentes na literatura chamada de cyberpunk. O principal livro do gênero é Neuromancer de William Gibson, publicado em 1984. O romance é escrito em uma linguagem cheia de gírias futurísticas, na tradição de A Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1962, Anthony Burgess).  Em Neuromancer o hacker Henry Dorsett Case é pego roubando de seu empregador, que se vinga afetando o seu sistema nervoso central e o impedindo de continuar a se conectar na Matrix, rede social e de internet na qual todos interagem no futuro. Henry Case envolve-se em um trabalho clandestino para conseguir a cura e um novo pâncreas, estragado pelo uso de drogas. A missão o envolve com duas Inteligências Artificiais (AI), Wintermute e Neuromancer. Consciências podem ser copiadas para a Matrix por Neuromancer, e passam a ter uma existência puramente virtual.

Cover of Em 1988, saiu o filme Cidade das Sombras (Dark City, 1988, de Alex Proyas). Esteticamente, Dark City faz uma homenagem aos filmes do expressionismo alemão como O Gabinete do Dr. Caligari (Das Cabinet des Dr. Caligari, 1920, Robert Wiene) e Nosferatu (Nosferatu, eine Symphonie des Grauens, 1922, F. W. Murnau). O espectador começa a ver um filme que, aparentemente, se passa na década de 30, até uma reviravolta espetacular, principalmente quando assistida na tela grande do cinema. Explorando uma temática parecida, em 1999 foi lançado o filme 13. Andar (The Thirteenth Floor, 1999, de Josef Rusnak). Mortes misteriosas começam a acontecer em uma firma que está criando um jogo em realidade virtual imersiva. Para jogar, é preciso ligar sua consciência à máquina e "vestir" a aparência de um dos personagens. O protagonista, Douglas Hall, começa a investigar o mistério e tem uma revelação inesperada. O filme é baseado no romance Simulacron-3, 1964, de Daniel F. Galouye.
poster for The Matrix 
No mesmo ano, mas mais tarde, foi lançado o filme Matrix (1999, irmãos Wachowski), combinando elementos do cyberpunk e de todos esses antecedentes. O mix dos irmãos Wachowski provou ser empolgante, porém de fôlego curto nas continuações. Sem ter planejado uma trilogia desde o início, os seguintes Matrix Revolutions e Matrix Reloaded não conseguiram corresponder à expectativa. O principal problema foi a indefinição de gênero. Quando Neo em Matrix Revolutions consegue manipular a "realidade", desconfia-se de um efeito "bonecas russas": aquela ainda não é a realidade, ele apenas saiu de uma simulação para cair em outra. Qualquer explicação que os diretores dessem deveria levar em conta que a premissa do primeiro filme era a de uma película de ficção "científica" (com uma certa liberdade em relação às Leis da Termodinâmica, mas ainda assim). Os protagonistas não deveriam ter poderes mágicos; eles são hackers do sistema da Matrix. Se a outra realidade também é manipulável, ela também deveria ser uma Matrix. Um sistema de magia implica na existência de um mundo sobrenatural, e isso não está na premissa de um mundo cyberpunk

Cover of
Com uma trama melhor resolvida é o animê Paprika (Papurika, 2006, Satoshi Kon). Nesse desenho, um time de cientistas é capaz de entrar nos sonhos de terceiros como um novo tipo de terapia psicoterápica. No entanto, alguém começa a usar o sistema para manipular e enlouquecer as pessoas e a protagonista precisa encontrar o responsável antes que haja mais vítimas. Quatro anos mais tarde saiu o filme A Origem (Inception, 2010, Christopher Nolan), também falando de sonhos dentro de sonhos e a dificuldade de saber o que é real e o que é sonho.

Os autores de Ficção Científica costumam explorar mais esses conceitos do que os de Fantasia, uma vez que a explicação para o que está acontecendo costuma envolver tecnologia e não metafísica. Uma exceção é o filme Os Agentes do Destino (The Adjustment Bureau, 2011, George Nolfi), também baseado na obra de Philip K. Dick, The Adjustment Group. No filme, o político David encontra a bailarina Elise em um banheiro masculino (isso mesmo), porém ao tentar se aproximar da moça começa a esbarrar em estranhos obstáculos. O filme é bom (o final poderia ser melhor) e bem construído, com uma explicação mais sobrenatural do que científica, o que o torna difícil de ser classificado. Como o leitor que me seguiu até aqui observou, por mais que um tema já tenha sido tratado por filmes e livros, sempre é possível criar algo novo e interessante. Um escritor não precisa de uma história que nunca foi contada, mas sim de uma abordagem nova. Espero ter dado dicas de bons filmes e boas leituras para os amantes do gênero. Até a próxima!
Águia

 *Patrícia Degani é mestre em Filosofia Antiga e Medieval pela PUCRS. Leitora e pesquisadora da literatura de Fantasia, escreve regularmente no blog Lendo Fantasia. É uma das coordenadoras da Breviário Cursos.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

LENDO FANTASIA: Fantasias Africanas

por Patrícia Degani
English writer Neil Gaiman. Taken at the 2007 ...
Neil Gaiman
Os leitores de Fantasia sabem que muitas histórias usam lendas celtas e nórdicas como base dos seus mundos fantásticos. O principal motivo disso é a força que o gênero fantástico tem no mundo anglo-saxão. Na Inglaterra, obras como Alice no País das Maravilhas de Lewis Carrol ou 1984 de George Orwell são consideradas clássicos da Literatura e não de um gênero específico.  Mas nada impede que escritores de outros quadrantes resolvam usar mitologias diferentes como inspiração de suas criações. Uma delas são as diversas mitologias africanas. A tradição caribenha e nigeriana está presente, por exemplo, nessas três obras: Anansi Boys, de Neil Gaiman; Akata Witch de Nnedi Okorafor e Wild Seed de Octavia C. Butler. 

Anansi Boys
Anansi Boys,
de Neil Gaiman
Neil Gaiman parte da cultura caribenha para escrever o divertido Anansi Boys. Criador da série em quadrinhos cult Sandman, Gaiman tem um texto leve e bem-humorado. Nessa história o herói é o trickster Anansi e seus filhos gêmeos que precisam enfrentar uma ameaça do mundo espiritual.

Akata Witch, de Nnedi Okorafor. (Imagem: Amazon)
Akata Witch,
de Nnedi Okorafor.
Okorafor situa sua história na Nigéria em Akata Witch, tendo como ponto de partida a cultura Igbo. A série da escritora tem ecos de Harry Potter e de Percy Jackson, porém a cor local é tão original e a visão de mundo tão contrária à americana ou inglesa que o resultado é muito interessante. Por exemplo, o ensino formal tem pouco peso no mundo ficcional de Okorafor. A experiência e saber "se virar" são coisas muito mais importantes. É um romance infanto-juvenil bem escrito, cuja originalidade está nesse fundo cultural diferente do que se está acostumado. Para o leitor brasileiro, momentos de identificação serão constantes, uma vez que a Nigéria é um dos berços da cultura africana no Brasil (os Orixás). A protagonista é uma negra albina e Okorafor faz a defesa das diferenças como algo especial, portador de magia. 

Wild Seed, de Octavia C. Butler. (Imagem: Amazon)
Wild Seed,
de Octavia C. Butler.
Por fim, Wild Seed também usa a mitologia da mesma região africana de Akata Witch, mas é um romance com conteúdo mais adulto. A trama segue dois seres mágicos africanos - Doro e Anyanwu - e sua saga no Novo Mundo, na época do tráfico negreiro. Essa pequena seleção de três livros mostra como é possível criar universos fantásticos interessantes sem fazer uso de mitologias que estão distantes da própria cultura em que se vive. Celtas e nórdicos não deixaram marcas entre nós. Eles não estão nos nossos gestos, falas e pensamentos, a não ser como um imaginário emprestado. É interessante ler sobre eles, mas porque não escrever sobre aquilo que carregamos conosco? 


 *Patrícia Degani é mestre em Filosofia Antiga e Medieval pela PUCRS. Leitora e pesquisadora da literatura de Fantasia, escreve regularmente no blog Lendo Fantasia. É uma das coordenadoras da Breviário Cursos.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Lendo Fantasia: ANDANDO EM CÍRCULOS

C. S. Lewis
C. S. Lewis (1898-1963)
O antigo professor de Literatura Medieval e Renascentista de Cambridge, C. S. Lewis, não escreveu apenas As Crônicas de Nárnia. Sua obra inclui inúmeros outros livros de ficção e não-ficção. Um dos meus textos favoritos de Lewis é um discurso que ele fez em uma palestra em 1944. O texto se chama The Inner Ring.

Acho o título meio difícil de traduzir. Lewis fala de grupos, turmas, patotas (círculos) que se formam naturalmente pela convivência humana. Todos nós participamos de vários. Quando crianças, temos nossa turma de amigos, por exemplo.

Porém existem dois tipos de círculos. O primeiro é aquele que é formado pelo amor em comum. Se você gosta de jogar videogame, pode ser que tenha um grupo de amigos que se reúnem para jogar. Se mais alguém quiser jogar também, o círculo está aberto: basta que o novato traga a sua CPU. O que reúne as pessoas é o prazer legítimo de fazer algo divertido juntos. O mesmo se você gosta de ler. Quanto mais gente gosta de ler, melhor; se você encontrar outras pessoas que também gostam de ler, com prazer você fará novas amizades e conversará com elas sobre a sua paixão em comum.

O segundo tipo de círculo é aquele que confere uma exclusividade para quem participa. Eles aparecem pela primeira vez na nossa vida quando entramos na adolescência. O grupo das Pattys do colégio. O grupo dos nerds. E tantos outros. Nesses grupos, não raro a graça de participar é a suposta superioridade que ser membro confere em relação às outras pessoas. São grupos excludentes. Se os nerds se reúnem para se darem um rótulo de inteligente ao invés de compartilhar seu amor pelos livros, quadrinhos, Sci-Fi e coisas do gênero, então formaram um Inner Ring. Se as Pattys estão juntas com o objetivo de exibir suas bolsas Victor Hugo e a roupa da moda aprovada pelo grupo e não porque realmente gostam de fazer coisas juntas, então elas formaram um Inner Ring.

O último parágrafo não soa como um fenômeno agradável ou bacana, não é mesmo? Segundo Lewis, essa vontade de pertencer ao círculo para ganhar um rótulo qualquer, um atestado de inteligente, cool, popular, vencedor, é a principal causa das nossas maldades cotidianas. O escritor é bem realista: dificilmente alguém vai aparecer na nossa frente com um saco de um milhão de dólares e tentar nos corromper. Mas quantas maldades, quantas grosserias todos nós já cometemos para sermos aceitos em um grupinho assim!

A fome de status, a vontade de ganhar um atestado de intelectual, de bem-sucedido, de "pegador", seja o que for, desperta o pior em nós. Você é capaz de renegar um amigo de infância porque ele não é cool o bastante, destratar sua tia distante porque ela não é refinada o suficiente, fazer grosserias para o seu parceiro porque ele não se parece com uma modelo ou um ator de cinema. Tudo para se ajoelhar no altar de algo vazio e sem significado: afinal, aquelas pessoas não estão reunidas pelo amor a algo, mas para disfarçar o seu próprio vazio.

Labour of the Danaids
The Labour of the Danaids, 1878
(oil on canvas), Weguelin,
John Reinhard (1849-1927)
Lewis fecha o texto explicando que a busca por esses rótulos é como o castigo das Danaides: encher eternamente um vaso furado. Ele dá o exemplo do violinista que quer pertencer à Orquestra de Câmara da sua cidade. Se ele quer entrar para ter um salário fixo, tocar com bons músicos e trabalhar um repertório que o fascina, será feliz. Se o instrumentista quer apenas se exibir por aí dizendo que toca naquela orquestra, logo sua felicidade de ter entrado se converterá em amargor. Sua alma cheia de furos vazará a pouca alegria que nela colocou. Se tiver azar, irá buscar um novo grupo, um novo círculo, ainda mais prestigioso que o primeiro. E encontrará novamente o vazio. Se tiver sorte, chegará o momento da Verdade e perceberá que o problema é ele, e não a orquestra. Citando o texto de Lewis:



Until you conquer the fear of being an outsider, an outsider you will remain.
Interpretando o original em inglês, eu diria: enquanto você não derrotar o medo de se sentir rejeitado, você continuará se sentido sempre aquém. Quando não tiver mais esse medo, o tonel se quebrará e virá a paz. Ao invés de tentar se engrandecer, descobrirá que a verdadeira realização é ser exatamente aquilo que se é, e fazer o que se faz pelo amor às coisas em si mesmas.


 *Patrícia Degani é mestre em Filosofia Antiga e Medieval pela PUCRS. Leitora e pesquisadora da literatura de Fantasia, escreve regularmente no blog Lendo Fantasia. É uma das coordenadoras da Breviário Cursos, pela qual ministrará, no dia 25 de outubro próximo, o curso ESCREVENDO FANTASIA, que está com as inscrições abertas.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Lendo Fantasia: FAZER COM ARTE E NÃO PELA ARTE ou SOBRE O PEDANTISMO

Christian & Oriental Philosophy of Art
COOMARASWAMY, Ananda.
 Christian & Oriental
 Philosophy of Art.
(Foto: Goodreads)
Lendo recentemente O Herói de Mil Faces (The Hero With Thousand Faces) de Joseph Campbell e Filosofia da Arte Cristã e Oriental (Christian and Oriental Philosophy of Art) de Ananda K. Coomaraswamy, consegui formular para mim o porquê do pedantismo ser mais do algo errado: é também imoral, no sentido religioso do termo.

Tanto Campbell quanto Coomaraswamy entendem que existe um significado metafísico por trás da mitologia e da arte das sociedades tradicionais. Campbell também enxerga um conteúdo psicológico de transformação do ego em direção a um significado maior da existência. Já o escritor indiano insiste que toda a arte, ou seja, toda a técnica de fazer algo bem-feito implica uma busca do Bem, do Belo e do Justo. Assim, todas as pessoas, do carpinteiro ao matemático, deveriam fazer o que fazem com arte. Porém, a arte é apenas o meio e não o fim do que fazem. O fim é a busca da Verdade.

Pedantismo é quando se dá mais importância ao meio que à finalidade em si.

Todas as vezes que fui pedante senti-me profundamente envergonhada depois. Parece ser, infelizmente, uma tendência nas pessoas que acumulam muito conhecimento sem digeri-lo direito. O pendantismo é errado porque ter mais informação acumulada não dá a ninguém o direito de menosprezar os outros. Analisando por esse prisma, ser pedante equivale a ser mal-educado. Você fala uma língua que ninguém entende só para se exibir. 

O Herói de Mil Faces
CAMPBELL, Joseph.
O Herói de Mil Faces.
O desprestígio atual dos intelectuais está muito ligado a isso. Muitos acadêmicos e intelectuais, principalmente da área de Humanas, não estão transformando o seu saber. Ao invés de ajudar as outras pessoas a chegar à Verdade ou dar uma luz sobre um problema real, perdem-se em exibições e competições de ego. Como querer que alguém simpatize com isso?

Na literatura de Fantasia, o pedantismo consiste em se alongar indevidamente sobre o mundo que se criou, exibindo-o em detalhes exagerados, atrapalhando a narrativa. J.R.R. Tolkien criou um universo paralelo, porém usou apenas o que interessava à sua narrativa. O resto foi publicado em apêndices ou como livros independentes. O professor de Oxford conhecia várias línguas antigas, mas não entupiu O Senhor dos Anéis com citações em anglo-saxão ou gaélico. Mervyn Peake, da série Gormenghast, escreve em um estilo propositadamente empolado, parecido com o dos escritores do século XIX (como Dickens) porque quer dar a ideia de um lugar antiquado e sufocado pela tradição. Nenhum deles queria se exibir ou intimidar o leitor. O que os movia era o amor à língua inglesa, no caso de Peake, e o amor à mitologia, no caso de Tolkien. Dois exemplos a serem seguidos.


 *Patrícia Degani é mestre em Filosofia Antiga e Medieval pela PUCRS. Leitora e pesquisadora da literatura de Fantasia, escreve regularmente no blog Lendo Fantasia. É uma das coordenadoras da Breviário Cursos, pela qual ministrará, no dia 25 de outubro próximo, o curso ESCREVENDO FANTASIA, que está com as inscrições abertas.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Lendo Fantasia: O PROBLEMA DAS FONTES

por Patrícia Degani

Ter acesso às fontes originais da mitologia e do folclore pode ser um problema para o leitor brasileiro. Não é fácil conseguir versões em português de obras como o Mabinogion (lendas galesas), o Beowulf, as Eddas (lendas nórdicas), o Kalevala (épico da Finlândia) e muitas outras que serviram de referência para escritores de fantasia consagrados como J. R. R. Tolkien ou C. S. Lewis. 
Fonte com leãoEm primeiro lugar, esses textos originais estão escritos em línguas antigas ou incomuns, como latim, grego, gaélico, islandês, anglo-saxão, etc. O professor Tolkien conseguia lê-los no original, mas é por isso que ele era um catedrático de Oxford. A segunda opção é ler uma boa tradução direto do original. Traduzir é tarefa difícil e que requer muito conhecimento, não só de idiomas, mas também de história, cultura, etc. Quando o tradutor não tem nem busca esse conhecimento, e nem tem alguma noção do idioma original, acontecem coisas inacreditáveis. Vou dar apenas um pequeno exemplo. Na Roma Antiga, o Imperador era chamado de tu. Santo Agostinho, já na transição entre Antiguidade e Idade Média, chama Deus de tu na sua obra mais conhecida, As Confissões. Isso porque no latim vós é simplesmente o plural de tu. Se o bispo de Hipona chamasse Deus de vós, seria acusado de politeísta. Os reis não foram sempre tratados por vós ou por majestade. O tratamento usual na Idade Média era Sua Graça. Até onde sei, foi Henrique VIII (aquele da minissérie dos Tudors) que exigiu ser tratado de Majestade pela primeira vez. e ele é um rei do Renascimento... 

 O uso do "nós" e do "vós" para referir-se a reis está ligado a autores de teorias absolutistas da monarquia, entre eles Thomas Hobbes e sua obra O Leviatã (The Leviathan). Se você observar com cuidado o rei que está no topo da página do livro, verá que ele é feito de pequenas pessoas. Essas pessoas representam o conjunto dos seus súditos. O monarca absoluto encarnaria, assim, o conjunto das vontades de seus súditos. Ele seria a Vontade Geral e por isso poderia dizer "nós, a França", como Luís XIV. 

Leviatã detalhe
Detalhe da capa original de Leviatã, de Thomas Hobbes.
Acontece que essa é uma construção típica da Idade Moderna na Europa Ocidental. Tradutores descuidados carregam esses cacoetes para todas as culturas e todas as épocas, dando a falsa impressão de que todos os reis sempre foram iguais, tratados da mesma forma, tiveram as mesmas prerrogativas e sempre usaram manto vermelho com pele de arminho e coroas gigantescas na cabeça. Pois é, o rei medieval francês São Luís ou Luís IX (1214-1230) gostava de usar roupas azuis, em homenagem à Virgem Maria. Recuando ainda mais, anax (ἄναξ) não é a mesma coisa que basileus (βασιλεύς) nos poemas homéricos. Na Ilíada, anax é reservado para os líderes máximos (Agamemnon e Príamo) enquanto os outros chefes tribais ou reis menores são tratados por basileis. Além disso, anax é um termo mais antigo, referente à cultura micênica. Todas essas palavras seriam traduzidas por rei, porém o que isso implica em cada caso é muito diferente. Pelo que se sabe até agora, os reis arcaicos gregos não tinham as mesmas prerrogativas e viviam mais modestamente do que o rei anax/wanax micênico que os precedeu. Quem tiver interesse em saber mais sobre a Grécia Antiga, recomendo o ótimo videocurso de um grande especialista, Donald Keegan, da Yale University (Introdução à História da Grécia Antiga).

Imagem galo-romana da deusa Epona. Musée Lorrain, Nancy. Foto: Marsyas, Wikimedia Commons.
Imagem galo-romana da deusa Epona.
Musée Lorrain, Nancy.
Foto: Marsyas, Wikimedia Commons.
Então o leitor brasileiro vai ler um texto sobre os antigos celtas, que tinham líderes tribais e lê coisas como "Alteza", gente chamando o chieftain de vós e por aí vai. É provável que os "reis" que aparecem no Mabinogion, por exemplo, sejam versões folclorizadas dos antigos deuses celtas. Rhiannon, uma das personagens dos contos sobre Pwyll, Príncipe de Dyved, é provavelmente uma representação de Epona, deusa galo-romana, protetora dos cavalos. Por isso é que em um dos contos a punição para um suposto crime de Rhiannon é ter que se oferecer para carregar as pessoas nas costas.

"Mas eu só quero ler a história!" Claro que sim. Uma das graças em ler essas histórias é que elas pertencem a culturas muito diferentes da nossa. São histórias estranhas - as coisas não acontecem como esperamos e a moral que os personagens seguem não é a moral judaico-cristã. Uma tradução que não venha do original acaba perdendo essas sutilezas e deixa tudo com a mesma cara de sempre. Não é justamente essa uma das críticas que se faz aos blockbusters norte-americanos? Um bom exemplo são os contos dos Irmãos Grimm. Visite a página da Karin Volobuef para ter uma ideia de como a tradução muda um texto. Os contos de fada que você acha que conhece não são aqueles que você viu no desenho da Disney. Segundo Karin, a edição com a tradução mais literal e próxima do texto é: GRIMM, Jacob; GRIMM, Wilhelm. Os contos de Grimm. Tradução de Tatiana Belinky. 6. ed. São Paulo: Paulus, 1989. Faça a experiência, você vai se surpreender.


 *Patrícia Degani é mestre em Filosofia Antiga e Medieval pela PUCRS. Leitora e pesquisadora da literatura de Fantasia, escreve regularmente no blog Lendo Fantasia. É uma das coordenadoras da Breviário Cursos, pela qual ministrará, no dia 25 de outubro próximo, o curso ESCREVENDO FANTASIA, que está com as inscrições abertas.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Lendo Fantasia: INFLUÊNCIAS HISTÓRICAS NA OBRA DE GEORGE R. R. MARTIN

O escritor George R. R. Martin escreveu a série de fantasia que mais chamou atenção nos últimos tempos: As Crônicas de Gelo e Fogo (A Song of Ice and Fire), também conhecida como Guerra dos Tronos, sua adaptação para a TV a cabo pela HBO. Martin, durante muito tempo roteirista de televisão, resolveu escrever tudo o que os produtores não deixavam que fizesse por conta dos custos: um elenco gigantesco, muitas externas, várias cenas de batalha, e assim por diante. (para referência, visitem o site do autor, Not A Blog). 

English: George R. R. Martin at the 2011 Time ...
George R. R. Martin
Os méritos de Martin são muitos, a começar pela capacidade de escrever diferentes pontos de vista - cada capítulo representa um personagem - e conceber uma história com muitos arcos e subtramas. O leitor ingênuo de Fantasia muitas vezes acha que os escritores conseguem criar mundos do nada, ex nihilo. O verdadeiro mérito desses escritores não é esse, e sim, saber aproveitar e recombinar elementos de histórias anteriores para criar algo totalmente seu. [caption id="attachment_55" align="aligncenter" width="215"] Uma Canção de Gelo e Fogo (A Song of Ice and Fire). (Foto: Amazon)[/caption] Uma lista concisa, porém bastante completa de influências, está no verbete em inglês da série Game of Thrones na Wikipedia (abaixo em tradução livre):

Uma Canção de Gelo e FogoOs locais, personagens e elementos narrativos dos livros e da série de TV são derivados de um vasto repertório de períodos da história europeia. A inspiração principal para os livros foi a Guerra das Rosas na Inglaterra (1455-1485) entre as casas Lancaster e York, espelhadas por Martin nas casas Lannister e Stark. Boa parte de Westeros, com seus castelos e torneios de cavaleiros, é baseada na Alta Idade Média. Por exemplo, a manipuladora Cersei lembra Isabel Capeto (1295-1358) a "loba de França". Mas a série também combina influências variadas como a Muralha de Adriano (que se transformou na Muralha de gelo de Martin), a queda de Roma e a lenda da Atlântida (antiga Valyria), o "Fogo Grego" de Bizâncio (chamado de "fogovivo/wildfire"), as sagas islandesas do período Viking (os Nascidos do Ferro - Ironborn) e as hordas mongóis (os Dothraki), bem como elementos da Guerra dos Cem Anos (1337-1453) e do Renascimento Italiano (1400-1500).
Brasões da Guerra das Rosas
Brasões da Guerra das Rosas. (Foto: Armazém de Idéias)
Para saber um pouco mais sobre a Guerra das Rosas (1455 - 1485) recomendo esta explicação sucinta neste site de portugal, Armazém de Idéias. O texto está depois do subtítulo A Centralização Monárquica Inglesa. O fim dos trinta anos de guerra das Rosas se deu com o casamento de Henrique de Lancaster com Isabel de York, gerando a Casa dos Tudors. Sobre os Tudors, há uma ótima minissérie (The Tudors - 2007-2010) protagonizada pelo ator Jonathan Rhys-Meyers no papel de Henrique VIII. Um acontecimento diretamente inspirado em fatos da Idade Média e do Renascimento é o episódio do Casamento Vermelho/Red Wedding. Como a minissérie ainda não chegou nesse ponto, não vou explicar muito para não estragar a surpresa dos telespectadores da HBO. O autor teria declarado em entrevista que a principal inspiração seria o episódio histórico do Jantar Negro (The Black Dinner). Em 1440, o sexto Conde de Douglas foi convidado para jantar com o jovem rei da Escócia, então com apenas dez anos. Um touro negro foi exibido no jantar e o desfecho foi, digamos, surpreendente. Quem quiser saber mais pode conferir o pequeno verbete da Wikipedia em inglês sobre o Clã Douglas.

Al Pacino em Ricardo III - um ensaio, prestes a suplicar por uma montaria. (Foto: Sundance Channel).
Al Pacino em Ricardo III - um ensaio (Foto: Sundance Channel)
Outra fonte provável é a Noite de São Bartolomeu, fato ocorrido em 1572 na França durante o casamento de Henrique de Navarra e Marguerite de Valois. As bodas foram retratadas no filme francês A Rainha Margot a partir do romance histórico de Alexandre Dumas. O filme tem uma reconstituição histórica muito boa e mostra bem o conflito entre católicos e protestantes. Outra possível inspiração para Martin é o rei Ricardo III, da casa de York. Em fevereiro de 2013 os restos mortais desse rei foram encontrados embaixo de um estacionamento (veja reportagem da BBC). Ricardo III é o personagem principal de uma peça de William Shakespeare. Uma fala do personagem ficou muito famosa; é quando perdido em um campo de batalha, Ricardo grita:"Meu reino! Meu reino por um cavalo!". O rei morto tinha um sério problema de coluna, agora confirmado pelos exames dos peritos feitos nos seus restos mortais. Shakespeare o descreve como corcunda. Assim, Ricardo III parece ser a fonte de inspiração do personagem Tyrion Lannister. Nesse caso, Martin trocou-o de casa e de deficiência, mas manteve a inteligência e a fome de poder.

Existe uma adaptação da peça de Shakespeare para a década de 30 com Sir Ian McKellen no papel principal (Richard III, 1995) e um workshop de Al Pacino que foi filmado sobre o processo de adaptação (Ricardo III, um ensaio, 1996. Título original: Looking for Richard). Em ambos Ricardo é retratado como um mau sujeito, sobretudo por causa do episódio da Torre com os jovens príncipes (pesquisem a respeito: pode ser um possível desfecho que Martin guarda para os príncipes Tommen e Myrcella). Mas convém lembrar que a peça foi escrita sob o patrocínio dos Tudors e pode ter sido injusta com o antigo rei da Casa de York. A estas referências eu acrescentaria várias outras. Por exemplo, há semelhanças entre a cultura de Dorne e a França medieval e renascentista, como uma certa tolerância para com os amores extraconjugais (paramours) e os conquistadores Targaryen lembram os franco-normandos que invadiram a Inglaterra em 1066 liderados por Guilherme, o Conquistador, e substituíram a nobreza anglo-saxã. Não por acaso os príncipes de Dorne são aliados dos Targaryen, assim como os descendentes diretos de Guilherme se sentiam mais ligados à França que à Inglaterra. Os selvagens (wildlings) seriam uma representação dos pictos e os Primeiros Homens (First Men) dos celtas; já os Andals, por serem loiros, seriam uma metáfora dos saxões, tendo seu nome tirado dos Vândalos (Vandals, em inglês), tribo germânica que invadiu o norte da África no final do Império Romano. Assim as principais etnias que compunham a Inglaterra medieval estariam representadas no mundo de Martin, na ordem das suas respectivas ocupações do território. Outras referências seriam a ilha de Tarth como metáfora da Irlanda (Ilha Esmeralda) e os clãs ao redor do castelo dos Arryn como antigos clãs escoceses.
Casas de Westeros
Casas de Westeros. (Foto: aplicativo Wallble)

No plano religioso, a religião dos Sete seria uma metáfora do catolicismo medieval (a religião da Trindade) e a religião antiga, dos cultos druídicos celtas (adoração de árvores, fontes, etc.). O culto do deus afogado (Drowned God) dos Nascidos do Ferro seria uma homenagem de Martin ao escritor H. P. Lovecraft e o seu conto O Chamado de Cthulhu (The Call of Cthutlhu). A religião de R'hllor estaria relacionada com o Zoroastrismo persa, com sua forte dualidade (deus do Bem x deus do Mal) e a existência de Templos do Fogo. Vale lembrar que o Zoroastrismo real está longe de ser algo pavoroso como o culto ficcional de R'hllor. Para os aficcionados de história da Idade Média e do Renascimento, ler Martin é um prazer em dobro, uma vez que é sempre possível sentir ecos de histórias que já conhecemos, porém com elementos novos e outros desfechos.
 Birds 

 *Patrícia Degani é mestre em Filosofia Antiga e Medieval pela PUCRS. Leitora e pesquisadora da literatura de Fantasia, escreve regularmente no blog Lendo Fantasia. É uma das coordenadoras da Breviário Cursos, pela qual ministrará, em outubro próximo, o curso ESCREVENDO FANTASIA.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Lendo Fantasia: O MABINOGION

V ocê já leu o Mabinogion? Provavelmente não. Esse livro, escrito em galês, foi traduzido pela primeira vez no século XIX. As fontes originais são bem mais antigas: o Livro Branco de Rhydderch (1300-1325) e o Livro Vermelho de Hergest (1375-1425). Algumas das histórias são do século XI. O títulos das fontes já chamam a atenção de um leitor de Fantasia. Não por acaso, J. R. R. Tolkien dá o nome de Livro Vermelho da Marca Ocidental (Red Book of Westmarch) ao livro que Bilbo e Frodo escrevem, e Sam complementa, em O Senhor dos Anéis

Red Book of Hergest - BBC Wales
Livro Vermelho de Hergest (Foto: BBC Wales)
O Mabinogion é um livro de muita influência na Literatura de Fantasia. Ele contém as histórias mais antigas do Rei Artur e do bardo Taliesin (ou Mirddyn, ou Merlin), além de quatro contos celtas bastante antigos (os quatro ramos do Mabinogi). Um dos contos mais interessantes é o de Pwyll, que sai para caçar e encontra a Morte (Arawn). Ultimamente todos os filmes que têm um deus subterrâneo o identificam com o diabo do Cristianismo popular, embora nas suas mitologias originais eles não fossem retratados assim (Hades/Plutão/Arawn). O senhor da Terra dos Mortos não é mau, nem seu reino um inferno. No conto de Mâth, temos uma versão de um deus solar (Lleu Llaw Gyffes), que só pode ser morto com um pé em um caldeirão e outro em um bode. Meu palpite é que isso simboliza a posição do Sol entre Aquário e Capricórnio, ou o solstício de inverno. 
Lleu rises in the form of an eagle. Image from...
Lleu rises in the form of an eagle.
Image from The Mabinogion, Charlotte Guest, 1877.
(Photo credit: Wikipedia)

Apesar de muito interessantes, os contos do Mabinogion contêm longas listas de nomes difíceis de pronunciar e repetições típicas da literatura oral, o que os torna difíceis de ler, mesmo em inglês. A escritora americana Evangeline Walton deu uma forma literária aos contos na Mabinogion Tetralogy. Os quatro livros correspondem aos quatro contos celtas, mas não contemplam as lendas arturianas. Lloyd Alexander, autor das Aventuras de Prydain, inspirou-se livremente no Mabinogion para criar o seu próprio mundo de fantasia. Houve uma tentativa fracassada de transformar seus contos em um desenho da Disney (Taran e o Caldeirão Mágico, 1985). A adaptação foi muito mal feita e o resultado foi péssimo. Mas a influência dos antigos contos celtas do País de Gales continua. Bernard Cornwell tirou das histórias mais antigas de Artur, que estão no Mabinogion, material para a sua versão do mito nas suas Crônicas de Artur (O Rei do Inverno, O Inimigo de Deus e Excalibur). Nas versões do Mabinogion, ainda não existe um Sir Lancelot (ele é francês, lembrem-se), a brutalidade da sociedade medieval é bem mais evidente e não há Santo Graal. O mistério que Peredur (Percival/Parsifal) presencia é, simplesmente, o dever de vingar um parente.

Mabinogion
O Mabinogion (Foto: BBC Wales)
Já as histórias dos quatro ramos do Mabinogi foram aproveitadas por George R. R. Martin nos livros da série Uma Canção de Gelo e Fogo (mais conhecido no Brasil por Guerra dos Tronos, minissérie da HBO). Em uma dessas histórias, o protagonista é o herói Bran, o Abençoado (Bran The Blessed). Bran é um dos sobreviventes de um grande combate entre ingleses e irlandeses no qual os nativos de Eire usam soldados mortos que, depois de jogados em um caldeirão mágico, transformavam-se em guerreiros mortos-vivos. Bran é morto, porém sua cabeça cortada continua viva, falando e banqueteando-se com os companheiros em uma bandeja de prata. Bran Stark, nos livros de Martin, fica aleijado, porém se torna uma espécie de vidente/guru, tal como Bran, o Abençoado. Aliás, os Filhos da Floresta de Martin lembram muito histórias de fontes celtas. Por todas as citações, já dá para perceber a importância do Mabinogion e a influência que esse livro teve nos escritores de Fantasia. O livro está disponível em inglês para baixar no Projeto Gutenberg, em vários formatos.  



 *Patrícia Degani é mestre em Filosofia Antiga e Medieval pela PUCRS. Leitora e pesquisadora da literatura de Fantasia, escreve regularmente no blog Lendo Fantasia. É uma das coordenadoras da Breviário Cursos, pela qual ministrará, em outubro próximo, o curso ESCREVENDO FANTASIA.