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quinta-feira, 27 de março de 2014

Dentro do livro, mil e uma utilidades

Desde o século XV, publicam-se almanaques. Menos comuns nos dias de hoje, eram publicações anuais disputadas em um passado não muito distante, no qual as informações não fluiam com a rapidez e amplitude que a internet nos proporciona hoje. O primeiro almanaque em português saiu em 1496.

Os almanaques, além de terem a função de nossas modernas agendas, traziam informações diversas, do calendário lunar aos solstícios, de dicas sobre como descobrir se as frutas estão maduras a informações menos úteis, como o manual acima apresentado, retirado de um raríssimo exemplar existente na Sapere Aude! Livros de um almanaque francês de 1927: um guia ilustrado sobre como descrever a fisionomia das pessoas.  

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Dentro do livro, um mundo de livros


Esta semana, a equipe da Sapere Aude! Livros encontrou em um dos exemplares antigos negociados na loja um brinde da IX Bienal Internacional do Livro de São Paulo.

Realizada em 1986, aquela bienal ainda aconteceu no edifício da Bienal de Arte de São Paulo, onde acontecia desde que a Câmara Brasileira do Livro (CBL) organizou, juntamente com o Museu de Arte de São Paulo (MASP), em 1963, um evento ao qual chamaram Bienal Internacional do Livro e das Artes Gráficas. Essa bienal era herdeira direta da Feira Popular do Livro, um evento anual que a CBL montou pela primeira vez em 1951 aos moldes das feiras do livro da Europa. Mas a Bienal do Livro como a conhecemos hoje ganhou o nome definitivo em 1970, quando a CBL assumiu sozinha a realização do evento. Hoje, a Bienal do Livro de São Paulo é uma das melhores do mundo, com um volume imenso de títulos comercializados a cada edição - com livros para todos os gostos e de todas as partes do mundo. 

A mensagem do cartão-brinde também nos faz pensar... O livro é mesmo um bom companheiro para todas as horas? Sem dúvida que sim, e não importa o número de horas que você precise da companhia deles. Se você precisar de companhia para uma longa jornada, o maior romance do mundo pode ajudar - trata-se de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, em sete volumes que totalizam aproximadamente um milhão e duzentas mil palavras.

 

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Dentro do livro, uma cidade de insurgentes

A equipe da Sapere Aude! Livros encontrou recentemente, dentro de um dos livros raros que chegou para venda na loja, um postal antigo da cidade francesa de Gordes que servia como marcador de livros.

Vila fundada por celtas, Gordes é uma cidade localizada nas montanhas de Vaucluse, no vale do Calavon, próxima a Avignon e à região da Côte D'Azur. Ainda se pode ver pela cidade vestígios da ocupação romana, da invasão árabe, do mosteiro beneditino construído ali no século VIII e do castelo erguido no século XI. Mas ao longo da história, Gordes ganhou fama de ser uma cidade de insurgentes por conta de dois episódios: sua oposição ao centralismo francês depois da anexação daquela região ao reino da França, no século XV, e por ter sido importante foco da Resistência durante a Segunda Guerra Mundial. 

Gordes e o vale que a circunda
A pequena cidade também foi moradia, por alguns anos, do pintor Marc Chagall, do ex-presidente francês François Mitterand e do cineasta brasileiro Walter Salles - certamente atraídos pela tranquilidade do lugar e pelas belas vistas da cidade, localizada sobre um morro, para o vale que domina a região.


quarta-feira, 29 de maio de 2013

Dentro do livro, um apartamento

O anúncio encontrado pela equipe da Sapere Aude! Livros dentro de um dos volumes usados que chegaram para venda na livraria é tentador: um apartamento situado próximo ao centro da cidade, em um quarteirão tranquilo, no segundo andar de um edifício pequeno, com cinco peças - sala de jantar, cozinha, três quartos, banheiro. É um apartamento antigo, no qual ainda havia a separação entre quarto de banho (salle de bains) e WC. O endereço? 8 Rue Racine.

O nome da rua é sem dúvida uma homenagem a um dos mais proeminentes dramaturgos da França, Jean Racine (1639-1699), famoso por suas tragédias, em especial Fedra. Contemporâneo de Molière, que alcançou notoriedade como comediógrafo, Racine teve algumas de suas tragédias encenadas pelo amigo no Palácio Real, como mostra o filme Marquise (1997).

Mas como deixar de lado a curiosidade sobre o tal apartamento?

Começamos verificando se o imóvel em questão era em Paris - o anúncio está escrito em francês, afinal. Mas o número 8 da Rue Racine na capital francesa abriga a Ecóle Royale Spéciale de Dessin, uma escola fundada em 1766 pelo pintor Jean-Jacques Bachelier para a educação artística de artesãos, a qual depois seria a Escola de Artes Decorativas de Paris.

Ecóle Royale Spéciale de Dessin, Paris



Tampouco seria em Montrouge, perto de Paris, onde hoje funciona uma escola infantil. Ou em Orsay, onde não há nenhum prédio de três andares, mas um chalé bucólico e um jardim florido. Em Nantes, o número 8 deu lugar a uma praça. No Canadá, encontramos uma concessionária de automóveis em Casselman, um posto de gasolina em Sanguenay, uma igreja em Baie-Saint-Paul. Na Bélgica, uma garagem em Wavre, um bosque em Namur... Nossa busca não pôde se estender mais que isto, pois uma rua chamada Racine na França é algo tão comum como uma rua de nome Getúlio Vargas no Brasil... Sem conseguirmos precisar a qual cidade pertencia o apartamento - e sem mesmo saber quando foi escrito esse bilhete à máquina de escrever -, cabe-nos apenas torcer para que tenha sido um bom negócio.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Dentro do livro, uma dedicatória inusitada

Os nomes não estão legíveis, não há como identificar homenageado e autora. Não há como saber sequer o que havia de especial na data de 15 de dezembro de 1979. Aniversário de namoro, talvez? De qualquer modo, nossa equipe encontrou em uma edição de Os Voluntários, romance de Moacyr Scliar, essa incrível dedicatória:

Apesar das traições homéricas,
 continuas sendo meu namorado preferido.

É curioso pensar no adjetivo usado pela autora. Homérico é um adjetivo que se refere a Homero, o pai da literatura ocidental, que deixou o legado de dois poemas épicos que são base de nossa cultura - a Ilíada, no qual narra a Guerra de Tróia, e a Odisseia, no qual conta a viagem de Ulisses ou Odisseu em regresso ao lar após a guerra. Com o tempo, o adjetivo tornou-se sinônimo de algo grande, monumental, épico.

Os Voluntários,
de Moacyr Scliar
(L&PM)
Talvez nesse sentido a autora tenha qualificado as traições do ex-namorado de homéricas - ou estaria ela se referindo à viagem de Odisseu, que no caminho teve várias deusas por amantes enquanto a esposa Penélope o aguardava em Ítaca? No caso do poema homérico, Penélope perdoa e acolhe o esposo traidor. E o homem que ganhou de presente Os Voluntários, terá sido perdoado como Ulisses? 

Os Voluntários, por sua vez, é uma escolha de presente improvável para uma namorada "vingativa": a história conta a viagem de um rebocador que parte de Porto Alegre com destino a Haifa, no intuito de levar um moribundo para ver a cidade de Jerusalém antes de morrer. Por mais que pareça trágica, a história é contada com o bom humor típico dos livros de Moacyr Scliar - um bom humor que a autora da dedicatória parece ter de sobra!

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Dentro do livro, sonegação de impostos

Certificado do 'Bolão do ICM' do governo Jair Soares
Nossa equipe encontrou um marcador de livros que é parte da história recente do Rio Grande do Sul. Durante o Governo Jair Soares (1983-1987), para aumentar a arrecadação de impostos no estado, a Secretaria de Fazenda lançou uma campanha na qual a população trocava notas fiscais por cupons como o da fotografia acima, com os quais concorriam a sorteios de prêmios variados. Era uma maneira de o governo, a partir das notas fiscais arrecadadas, comparar os impostos recolhidos e declarados pelos estabelecimentos comerciais com aquilo que realmente circulava no estado, combatendo assim a sonegação de impostos.

Soares (D) recebe o ex-governador do RS Leonel Brizola (E) no Palácio Piratini

Jair Soares (1933), hoje no PP, venceu as primeiras eleições diretas para governador do RS pelo então PDS, superando seu principal opositor, Pedro Simon (PMDB), por uma margem inferior a 1% (um por cento) dos votos. Curiosamente, os três candidatos de oposição a Soares naquelas eleições - Simon, Alceu Collares (PDT) e Olívio Dutra (PT) - viriam a ser eleitos governadores do estado em eleições posteriores. Soares havia sido anteriormente ministro da Previdência Social entre 1979 e 1982. Sua última candidatura para um cargo majoritário foi em 2004, quando perdeu as eleições para prefeito de Porto Alegre para José Fogaça (PMDB). 


quinta-feira, 2 de maio de 2013

Dentro do livro, Nietszche e a paz entre alemães e russos

Postais de Rapallo, Itália
 Nossa equipe encontrou dentro de um dos livros antigos comercializados na internet pela Sapere Aude! Livros estes cartões postais da cidade italiana de Rapallo, usados como marca-páginas. Embora não estejam datados, as imagens levam a crer que se trata de material da década de 1960.

Rapallo é uma pequena cidade costeira na região da Ligúria, próxima a Gênova. Entrou para a história por ter sido a cidade de dois importantes tratados: em 1920, italianos e integrantes das três repúblicas que depois formariam a Iugoslávia assinaram um acordo que pôs fim a problemas de fronteira entre os países; em 1922, alemães e russos assinaram um importante tratado de paz pelo qual renunciavam a quaisquer reivindicações territoriais e financeiras decorrentes da Primeira Grande Guerra. Por debaixo dos panos, em um adendo secreto do chamado Tratado de Rapallo, permitia aos alemães treinarem suas tropas em território russo, o que ia contra as sanções impostas à Alemanha pelo Tratado de Versalhes.

Outra curiosidade sobre Rapallo: caminhando por suas estradas é que o filósofo alemão Friedrich Nietszche teria elaborado as ideias para o seu "Assim Falou Zaratustra", segundo relato de sua irmã Elisabeth Föster-Nietszche. 

Dentre os moradores ilustres da cidade está o poeta estadunidense Ezra Pound, que viveu ali nos anos 1930.

*A coluna foi publicada excepcionalmente na quinta-feira por conta do feriado de Primeiro de Maio.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Dentro do livro, deuses e feras

"E assistiremos na tela do São José a um empolgante filme da UFA, que o acreditado programa Urania oferece: 'Deuses, homens e feras', filme arrebatador por suas cenas de forte dramaticidade, centralizadas por uma atriz de relevo: Ellen Kuerty." 
Assim o jornal paulistano "Correio da Manhã" de seis de dezembro de 1928 anunciava a película retratada neste panfleto encontrado pela equipe da Sapere Aude! Livros dentro de um dos livros comercializados na loja. A Universum Film AG, ou UFA, é ainda hoje um dos principais estúdios de cinema e televisão da Alemanha, mas entre 1917 e 1945 seu alcance era mundial, produzindo clássicos como "O Gabinete do Doutor Caligari" (1920), "Metropolis" (1927) e "O Anjo Azul" (1930), bem como lançando estrelas como Marlene Dietrich.

Imagina-se que o programa da imagem acima seja de 1929, levando-se em conta o tempo que as películas levavam para serem transportadas de cidade em cidade pelo Brasil para exibição nos cinemas.  

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Dentro do livro, três filmes

 A Sapere Aude! Livros, além de trabalhar com as últimas novidades do mercado livreiro e abrir suas portas para as novas editoras e as publicações independentes, é também muito solicitada por seu vasto catálogo de livros antigos e raros, com venda para todo o Brasil. Pois é dentro dessas obras mais antigas que são encontrados verdadeiros tesouros que a equipe da livraria vem guardando com carinho. Marcadores de página antigos, mas também fotografias, documentos, bilhetes, cartas, recortes de revista e os mais inusitados objetos, usados para que seus donos não perdessem a página em que tinham interrompido a leitura, fazem parte desta coleção que iremos revelar aqui a cada semana. Nesta seção, mostraremos algumas dessas preciosidades, como o programa que anunciava "jóias do escrínio artístico" de seus promotores para a diversão das tardes (clique na foto acima para ampliar)

Lil Dagover
Esse marcador de páginas improvisado e esquecido dentro de um livro convidava para a apreciação de uma programação de três filmes em sequência - pesquisando pela data em que esses filmes foram produzidos e posteriormente exibidos no Brasil, deduzimos que o programa é do ano de 1929. "Por que choras, palhaço?", um obscuro filme do grande ator sueco Gösta Ekman, é uma obra de tal modo obscura que nem consta na filmografia do ator. Já "Os escravos do Volga", produção de 1928, foi uma das primeiras estrelada pela atriz argentina Mona Maris, que teve uma carreira internacional por falar fluentemente o francês e o alemão, mas recusada por Hollywood por não falar inglês. E "Lábios selados", uma produção alemã de 1928 com Lil Dagover, atriz que ficara famosa à época por participar do clássico filme "O Gabinete do Doutor Caligari", de 1920 (foto acima)