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quinta-feira, 17 de julho de 2014

Biografia de Torquato Neto chega às livrarias em edição ampliada

por Diego Petrarca

Torquato Neto
Torquato Neto foi um poeta mais situado nas letras das suas canções do que nos livros. Em sua abreviada vida, marcou a poesia e a música brasileira _ um dia após completar 28 anos, em 1972, suicidou-se por inalação de gás. Um dos líderes conceituais do tropicalismo, foi parceiro de músicos como Jards Macalé e Luiz Melodia, compondo faixas emblemáticas como Pra Dizer Adeus (com Edu Lobo) e Louvação (com Gilberto Gil). Reverenciado por poetas como Ana Cristina Cesar, Paulo Leminski e Waly Salomão, abriu caminho para uma geração de novos autores nos anos 1970 com sua poética fragmentária e se tornou referência da contracultura no Brasil a partir da coluna Geleia Geral no jornal Última hora, em 1971, e da idealização da revista de poesia Navilouca.

Essa rica trajetória é narrada em A Biografia de Torquato Neto, originalmente lançada em 2005 e que agora ganha reedição ampliada - o jornalista curitibano Toninho Vaz, também autor da biografia de Paulo Leminski (O Bandido que Sabia Latim), quis relançar o livro que acredita ter passado despercebido à época. Em mais de 400 páginas, apresenta o perfil lírico e conturbado do jovem jornalista Torquato Neto, que, ao mesmo tempo, causa curiosidade e estranheza. Afinal, quem foi esse rapaz, filho único, nascido em Teresina, Piauí, porta-voz da tropicália que rompeu com os amigos baianos e destruiu parte da sua obra literária, foi internado em hospitais psiquiátricos e pensou a poesia para além da página. Mais: provocou o cinema novo e deu régua e compasso para novas expressões poéticas _ era leitor de poesia concreta, Antonin Artaud e Oswald de Andrade e fã de Carlos Drummond de Andrade a ponto de segui-lo pelas ruas de Copacabana. Nenhuma dessas facetas de Torquato escapa do texto minucioso de Toninho Vaz.

O poeta das elipses, dos inesperados curtos-circuitos entre as palavras e da sintaxe descontínua, faria 70 anos neste novembro. Além da reedição do livro de Vaz, está previsto o lançamento de um documentário a respeito de Torquato para 2015. É mais uma chance de mergulhar na obra do autor que tinha, entre suas frases mais conhecidas, este verso do poema Cogito: "Eu sou como eu sou/ pronome/ pessoal intransferível/ do homem que iniciei/ na medida do impossível".

O jornalista Toninho Vaz, autor das
biografias de Leminski e Torquato Neto



Confira entrevista com o autor:



A figura de Torquato é muito vinculada ao tropicalismo. Isso não acabou abafando outras produções do poeta?
O trabalho do Torquato foi interrompido por sua morte precoce, mas falamos dele até hoje, o que revela a importância da sua incipiente produção intelectual. Para Torquato, a experiência tropicalista se soma a trabalhos feitos com músicos de outras áreas, como Edu Lobo e Nonato Buzar.


O que o senhor mais destacaria da obra de Torquato?
Gosto do conceito criado por ele para a revista Navilouca, reunindo jovens poetas daqueles conturbados anos 1970, todos de vanguarda, incluindo os "professores" Décio Pignatari e Augusto de Campos. A revista, entretanto, só foi editada depois de sua morte. Considero um marco na poesia brasileira.

* Diego Petrarca é um dos mais profícuos e talentosos poetas da nova geração no RS, com diversas publicações no gênero. Professor de literatura e redação, ministra Oficina de Poesia na Sapere Aude! Livros. Saiba mais em http://oficinasliterarias.wordpress.com
 
**Texto originalmente publicado em Zero Hora:  http://zh.clicrbs.com.br/rs/entretenimento/noticia/2014/07/biografia-de-torquato-neto-chega-as-livrarias-em-edicao-ampliada-4540922.html

quinta-feira, 19 de junho de 2014

O corpo abandonado e a consumação do indivíduo

Um corpo de mulher, com o rosto desfigurado pela crueldade com que fora arrastado até ali, é encontrado por um homem humilde à beira de uma estrada. Sem possível identificação imediata, é levado à perícia e repousa sobre a mesa fria de um médico legista. Naquela mesa, iniciada a necrópsia, é aquele corpo quem irá contar toda a história da mulher que o habitava - mas não em um exercício sobrenatural como o do machadiano "Memórias Póstumas de Brás Cubas"; qual um instrumento musical raro, precisará das habilidades do legista para ser desvendado aos poucos e desnudado diante dos olhos do leitor. É dessa premissa que parte o genial Este é o meu corpo, romance de estreia da escritora portuguesa Filipa Melo.

Lançado em Portugal em 2011 - no Brasil, seria publicado apenas três anos depois -, o romance aborda, de forma magistral, uma temática difícil e desafiadora - a morte e, mais precisamente, a violência contra a mulher que resulta naquela morte trágica e brutal da protagonista inerte dessa história. Escrito com singular apuro de linguagem, com total economia de recursos e prosa envolvente, Este é meu corpo tem em sua construção um dos pontos mais marcantes: o romance é contado ora em primeira pessoa - na voz do médico legista que examina o corpo de mulher e, solitário, conversa consigo mesmo e com o cadáver sobre o ato de examiná-lo em busca de sinais que lhe contem a sua vida -, ora em terceira pessoa, levando o leitor a conhecer fragmentos de narrativa sobre a falecida e as pessoas que conviviam a seu redor.

O resultado final é essa pequena obra-prima - que até hoje permanece como único romance escrito pela autora. Pelas mãos do legista, pela frieza de suas palavras, mas também por seu profundo amor por seu ofício, o leitor é levado a conhecer a mulher penalizada por ser forte e livre em um universo de figuras masculinas fragilizadas e pressionadas sob o peso das exigências de uma masculinidade nascida a fórceps. O próprio médico legista é também um desses homens fracos, que por não conseguir se relacionar com o mundo, prefere a companhia de seus mortos, seu controle sobre eles. Mas, como o legista, todos os personagens que orbitavam em torno dessa mulher morta parecem viver o mesmo mal - a incapacidade de viver em grupo, de encontrar um meio termo que lhes torne a vida aceitável na companhia do outro. Não por acaso, em sua constante ironia, o médico legista irá declarar que "os mortos falam". Ao final do livro, o leitor perceberá que a personagem mais viva daquelas páginas é mesmo aquela cujo cadáver repousa na mesa fria da perícia.

Em entrevista concedida um ano e meio após o lançamento do livro, Filipa Melo recordou um pensamento do Milan Kundera, que diz que "nos preocupamos tanto com a imortalidade que nos esquecemos de pensar na morte". Para a autora, a sociedade ocidental e católica, há muitos séculos, tenta "domesticar a morte, afastá-la", pensá-la como "um estado intermédio, entre a vida e uma outra coisa qualquer que não se sabe bem o que é". Este é o meu corpo seria sua forma de refletir na morte como "a consumação do indivíduo enquanto pessoa (...), um momento único e que nos transforma em seres únicos(...), de regresso à nossa singularidade, mesmo quando passámos a vida inteira a construir pontes para os outros." Despojada de qualquer humanidade, o corpo de mulher sem rosto e sem individualidade parece-nos, ao final do livro, quando o médico legista dá por concluída sua tarefa de interlocutor dos mortos, um memento mori de nossa mesma, fragilíssima condição.

*Texto de Robertson Frizero - escritor, professor de Criação Literária e Mestre em Letras pela PUCRS.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Simão Botelho e uma paixão maior que a ficção

Simão Antônio Botelho, que assim disse chamar-se, ser solteiro, e estudante na Universidade de Coimbra, natural da cidade de Lisboa, e assistente na ocasião de sua prisão na cidade de Viseu, idade de dezoito anos, filho de Domingos José Correia Botelho e de D. Rita Preciosa Caldeirão Castelo Branco; estatura ordinária, cara redonda, olhos castanhos, cabelo e barba preta, vestido com jaqueta de baetão azul, colete de fustão pintado e calça de pano pedrês. E fiz este assento, que assinei - Filipe Moreira Dias.

É costume dizer-se que "a vida imita a arte". Tal máxima popular tenta explicar as histórias reais aparentemente incríveis, que igualam ou superam os enredos criados por escritores ao longo dos séculos. Esse excerto, por exemplo, retirado dos assentamentos do cartório das cadeias da Relação do Porto, foi a confirmação que o escritor português Camilo Castelo Branco precisava para acreditar que as histórias contadas por sua tia Rita, que o havia criado, sobre um malfadado tio de nome Simão Botelho, eram verdadeiras.

O romance Amor de Perdição, cujo enredo foi situado por Castelo Branco nos últimos anos do século XVIII, traz em si toda a carga emocional do movimento literário no qual seu autor mergulhou com toda a sua alma - e é, segundo seu autor, a ficcionalização de todos os acontecimentos reais que ele conheceu pelos relatos de família - incluindo uma frase escrita à margem esquerda do assentamento acima, informando que Simão Botelho foi exilado para a Índia em 1807. Talvez seja por esse flerte com a realidade que Amor de Perdição permaneça, até hoje, como o romance em que mais se identifica o Portugal do Romantismo - ou, como o classificam alguns, do Ultraromantismo. Nele há todos os aspectos que tão bem caracterizam aquela escola: a exacerbação das emoções, as reviravoltas do enredo, a entrega dos personagens às suas paixões, a crítica social e até mesmo o nacionalismo tão marcante do Romantismo em todo o Ocidente.

A história da paixão proibida de Simão Botelho pela jovem Teresa, filha de um inimigo político de sua família, não por acaso é conhecida como o Romeu e Julieta português. Há diversas peripécias do romance de Castelo Branco que acompanham o mesmo desenho da trama de William Shakespeare - desde a premissa do amor proibido entre os filhos de famílias inimigas até o assassinato cometido por Simão, que mata um primo de Teresa ao tentar evitar que a moça seja enviada a um convento. Mas a originalidade - caso queiramos desconfiar que a fonte do autor português tenha sido Shakespeare, mais que a história da própria família - é algo de pouca importância quando se está diante de uma obra-prima: o próprio dramaturgo inglês não foi original ao escrever "Romeu e Julieta", tendo se baseado em pelo menos três poemas que lhe antecederam contando a sina de Romeus e Iulieta, que por sua vez sorveram da fonte primeira, as Metamorfoses de Ovídio, na qual há o mito de Píramo e Tisbe.

Amor de Perdição impõe-se pela fina ironia do texto de Castelo Branco, que critica com humor singular a estrutura da família tradicional portuguesa, que nas entrelinhas culpa por precipitar a tragédia dos dois amantes. Mas há também diferenças marcantes no encaminhamento da história dos apaixonados portugueses - a paixão dos dois jovens ganha uma protetora, Mariana, ela mesma apaixonada por Simão, ainda que conformada de que jamais consumaria sua paixão -, e há, enfim, o documento histórico que prova, ao menos, que existiu um Simão Botelho, deportado para a Índia por conta de um assassinato cometido por paixão. Camilo Castelo Branco - ele mesmo preso à época em que escreve o romance, sob a acusação de adultério e rapto de sua amada prima Patrícia Emília - certamente aproveitou-se da proximidade que sentia do tio falecido e seus sentimentos para compor este que é seu maior romance em apenas quinze dias, no cárcere, em condições ideais de criação para um romântico de alma aberta como ele. Infelizmente, o escritor escolheu para si mesmo um fim trágico, digno de um hérói romântico e desesperado, mas não sem antes deixar para seu país o legado de mais de uma centena de obras.

Hoje, a praça em frente à antiga cadeia da Relação do Porto ganhou o nome de Amor de Perdição, primeiro e único exemplo de logradouro público em Portugal a ganhar o nome de um romance. Homenagem merecida a um livro exemplar de uma época e de um grande escritor.

*Texto de Robertson Frizero - escritor, professor de Criação Literária e Mestre em Letras pela PUCRS.

  


quinta-feira, 5 de junho de 2014

Amante da Algazarra



por Diego Petrarca

Após os lançamentos da poesia completa de Paulo Leminski e Ana Cristina César, agora é a vez do poeta e letrista Wally Salomão ter sua obra poética reunida em livro. Poesia Total (Companhia das Letras - 552 páginas) reúne os oito livros do autor e algumas letras de canções nunca publicadas em livro, além de textos sobre sua obra assinados, entre outros, por Antônio Cícero, Francisco Alvim e Davi Arriguci Jr e Armando Freitas Filho.

Entre os títulos estão Me Segura que eu Vou Dar um Troço, lançado em 1972 e reeditado numa edição caprichada em 2004 pela Biblioteca Nacional e a editora Aeroplano, já fora de catálogo. O livro, escrito nas celas do Carandiru onde o poeta ficou preso num curto período por porte de maconha, é um marco da poesia experimental dos anos 70, reunindo anotações esparsas, manuscritos, desenhos, fotografias, composto de mosaicos e escrita verborrágica, gênese do discurso de Wally: a poesia espalhada em prosa e o apelo gráfico/visual resinificando o conteúdo verbal.

Outra raridade que a obra comporta é o seu segundo livro, Gigolô de Bibelôs, lançado em 1983 pela editora Brasiliense no selo Circo de Letras, responsável pelas edições dos chamados poetas marginais, protagonistas da contracultura pós tropicalista dos anos 70. O livro traz textos híbridos misturando prosa poética e poemas visuais e apresenta algumas letras emblemáticas de canções gravadas por Gal Costa (como Vapor Barato, parceria com Jards Macalé, que embalou muitos casais e despedidas durante o regime militar e depois regravada pelo grupo o O Rappa, com enorme sucesso), Mel (parceria com Caetano Veloso cantada por Maria Bethânia, que deu nome a um disco de 1979 e tocou muito nas rádios) Anjo exterminado (outra parceria com Macalé gravada por Bethânia), entre outras mais e menos conhecidas. Poesia Total também resgata um perfil criativo que Wally Salomão escreveu sobre o artista plástico Hélio Oiticcica, Qual é Parangolé?, contaminado de uma linguagem coloquial e comentários absolutamente pessoais de Wally sobre artes e plásticas e sobre o processo de criação do amigo criador da instalação Tropicália, de 1964. 




Poeta polifônico. É desse modo que Wally Salomão se declarava. A matéria da sua poesia, centrada na palavra, deixava-se conviver livremente com a visualidade, com a incorporação da fala cotidiana na construção do poema, da utilização explícita de um despojamento do discurso, numa busca permanente de outras formas poéticas, estreitando as relações entre o texto e arte plástica, música, leitura em voz alta, caligrafia, alargando as possibilidades de veiculação da expressão poética que se realizou mais plenamente em seu trabalho como letrista. Wally Salomão é titular na tradição de poetas que começaram publicando poemas nas canções para depois sair nos livros, ao lado de Antônio Cícero e Torquato Neto. Esse trânsito livre de um suporte a outro sempre fluiu com naturalidade em sua trajetória, como disse Antônio Cícero: Wally Salomão dribla as convenções tanto do cânone quanto dos marginais. É pioneiro pela abertura das múltiplas possibilidades que caracteriza a chamada poesia contemporânea. A poética de Wally agrega transe, movimento, excesso, caixa alta, sobreposições, variações de alinhamento. A anotação esparsa complementa a criação de um novo vocábulo, conforme seus títulos: vai da extensão de uma Lábia (1998) a contenção de seu Armarinho de miudezas (1996): tudo o poema comporta e amalgama.

Wally Salomão
Poeta POLIVOX, com a mesma contundência e extravagância nas páginas dos livros quanto em sua fala presencial. Wally é o que pode se chamar de poeta ou artista multimídia: produziu Cássia Eller cantando Cazuza, dirigiu e deu nome ao histórico show de Gal Costa no auge da sensualidade: FA-TAL, de 1971. Foi modelo para intervenções fotográficas de Hélio Oiticica. Reuniu os escritos póstumos de Torquato Neto (Últimos Dias de Paupéria, 1973) e escritos inéditos de Caetano Veloso para uma antologia. Lia poemas no programa A Fábrica do Som, da TV Cultura de São Paulo. Editou a revista de poesia Navilouca, em 1974, com artistas plásticos e poetas renovando a linguagem do verso dentro e fora da página. Foi parceiro constante de Adriana Calcanhotto a partir do disco A Fábrica do Poema (1994), inspirado em seu poema, além de coautor de discos inteiros (a trilha do filme Quilombo, de Cacá Diegues, parceria com Gilberto Gil, 1984) e João Bosco (as canções do disco Zona de Fronteira, em parceria com Antônio Cícero, 1991). Foi padrinho do grupo Afro Reggae e liderou atividades culturais em Vigário Geral, periferia do Rio de Janeiro. Interpretou o poeta Gregório de Mattos no cinema. Escreveu a letra de Assaltaram a Gramática (1984) parceria com Lulu Santos, um dos primeiros sucessos radiofônicos do rock nacional. Em 2008, foi lançado o filme Pan Cinema Permanente, um ótimo documentário sobre o poeta dirigido por Carlos Nader.

O baiano de Jequié, filho de sírio com sertaneja, morreu em maio de 2003 aos 59 anos, enquanto era Secretário Nacional do Livro - Ministério da Cultura, na gestão de Gilberto Gil. Uma de suas propostas era a inclusão do livro na cesta básica dos brasileiros. Deixou o livro póstumo Pescados Vivos pronto, incluído agora em Poesia Total. Caetano Veloso homenageou o amigo na canção Wally Salomão, do disco (2006), esboçando uma tentativa de definição:  

Meu grande amigo
desconfiado estridente
eu sempre tive comigo
que eras na verdade
delicado e inocente.

Poesia Total, a obra completa de Wally Salomão, traz junto sua metáfora transbordante, que revitaliza o sentido e faz a poesia alçar outra metas e linguagens, conforme diz o poema Olho de Lince:  

Quem fala que eu sou esquisito hermético
É porque não dou sopa, estou sempre elétrico
Nada que se aproxima, nada me é estranho
Fulano sicrano beltrano
Seja pedra seja planta seja bicho seja humano.

* Diego Petrarca é um dos mais profícuos e talentosos poetas da nova geração no RS, com diversas publicações no gênero. Professor de literatura e redação, ministra Oficina de Poesia na Sapere Aude! Livros. Sua próxima turma terá início no dia 10 de junho de 2014 - saiba mais em http://oficinasliterarias.wordpress.com

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Rassul e a justiça impossível

Atiq Rahimi

A literatura de Atiq Rahimi é profundamente marcada por sua formação como cineasta e sua origem afegã. Radicado na França desde os vinte e dois anos de idade, o escritor tornou-se uma das vozes mais proeminentes oriundas do Afeganistão, cenário de todas as suas obras e fonte inesgotável de suas histórias de um profundo humanismo. Como exilado político, pôde retratar com liberdade os efeitos das inúmeras guerras pelas quais passou o país, mostrando com perturbadora franqueza como diferentes tipos de tirania afetaram a vida social de seus compatriotas. 

Nascido em Cabul, Afeganistão, em 1962, Atiq Rahimi conhece bem os cenários de seus livros. Exilado na França desde 1984, fugindo do alistamento no Exército pró-soviético e da censura, tornou-se doutor em Cinema pela Sorbonne e, como cineasta, dedica-se aos documentários e filmes de ficção, incluindo a versão cinematográfica de seu livro de estreia, Terra e Cinzas (2004), escolhida como representante do Afeganistão no Oscar 2004, e do romance Pedra-da-paciência (2012), indicado do país para o Oscar 2013. Escrevendo em dari, variação do farsi falada no noroeste do Afeganistão, ou em francês (caso de seus dois mais recentes romances), Rahimi mostra um grande domínio da narrativa e um profundo gosto pela intertextualidade na composição de suas histórias.

RAHIMI, Atiq. Maldito Seja Dostoiévski (Estação Liberdade, 2010)
Esse é o caso de Maldito Seja Dostoiévski, seu quarto romance e o mais recente a ser lançado no Brasil, onde toda a sua obra tem sido publicada com regularidade. Nesse romance, Rahimi oferece-nos a história de Rassul, uma espécie de Raskólnikov afegão para quem não há reparação possível por conta de seu crime. Se em Crime e Castigo, o romance dostoievskiano com o qual o livro dialoga ironicamente, o protagonista encontra a redenção, no cenário proposto pelo autor afegão resta apenas a culpa para Rassul: estamos no Afeganistão dos anos 1990, em plena guerra civil, tempos nos quais a Justiça foi eclipsada pela ascensão ao poder dos talibãs, grupo extremista muçulmano que libertaria o país do jugo soviético apenas para mergulhá-lo em tempos ainda mais trevosos. 

Rassul é bibliotecário da Universidade de Cabul e, tendo estudado na Rússia entre 1986 e 1989, guarda em sua casa livros russos e é, por isso, visto como comunista - crime considerado pior que o de ter assassinado uma velha cafetina. A busca de Rassul, corroído pelo remorso e pela culpa, torna-se a de encontrar um juiz justo - e nisso reside a genialidade da releitura de Rahimi, que une nessa jornada de absurdo Dostoiévski, Kafka e Camus em um romance que, segundo o autor, encerra seu ciclo pessoal de obras sobre o Afeganistão. Ao mesmo tempo em que anseiam por suas próximas propostas, seus leitores talvez fiquem desolados com a notícia - já que nunca houve uma voz que nos falasse de seu país natal como a desse autor genial.

*Texto de Robertson Frizero - escritor, professor de Criação Literária e Mestre em Letras pela PUCRS.