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quarta-feira, 11 de junho de 2014

CRÔNICA DA SEMANA: My life as a ghostwriter


Tenho uma confissão a fazer: já fui um fantasma.

Tudo começou quando, há alguns anos, uma amiga pediu que eu escrevesse a história de vida de seu pai para participar em um concurso cultural. Assumi o compromisso com uma seriedade que ela talvez não imaginasse - entrevistei o pai dela, pesquisei algumas referências, redigi o texto final usando alguns recursos literários. O texto, que seguiu para o tal concurso assinado pelo pai de minha amiga, foi premiado.

Depois, outras oportunidades surgiram. Hoje, sem jamais ter anunciado meus serviços, já somo alguns trabalhos publicados, entre autobiografias e biografias. Ainda não recebi proposta, nem sei se aceitaria, para escrever ficção que seja depois publicada em nome de outro. Esse é, afinal, o ofício que os americanos chamam de ghostwriter ou, no caso dos especializados em escrever discursos, speechwriter

Jamais havia revelado isso antes por conta de certo preconceito que ainda existe no Brasil contra essa digna ocupação de um escritor. Em um país como o nosso, em que o Romantismo fez, dos artistas, seres divinizados, dizer que se aceitou um trabalho de escritor-fantasma é quase uma heresia, praticamente um pacto fáustico de um escritor a vender sua arte ao demônio das contas no fim do mês. Sinto-me mais alinhado com a cabeça dos escritores de países como os Estados Unidos e Canadá, onde a profissão - sim, há escritores-fantasmas sindicalizados - é vista não como uma fraude consensual, mas como uma forma de fazer chegar à publicação histórias de interesse geral cujos protagonistas não tem talento para colocar no papel.

É assim que vejo esse trabalho que surgiu para mim de forma absolutamente inesperada. As histórias não são minhas, mas eu ajudo a que elas tomem a forma de um texto agradável ao leitor. Para chegar a um resultado satisfatório, criei também minha própria metodologia fantasmagórica.

O princípio de todo bom livro é que o autor conheça em profundidade o tema sobre o qual escreve. No caso do ghostwriter, é preciso também incorporar um pouco da alma de quem se escreve, digamos assim: não basta ao escritor criar um texto em seu estilo particular e emprestá-lo àquele que o assinará nas capas dos livros - é essencial que, na medida do possível, o escritor-fantasma capture algo do estilo de expressão de seu cliente, seja a palavra escrita ou falada. Para tal, começo sempre com uma série de entrevistas, que costumo gravar, iniciando por um breve relato do conteúdo da obra até ir aprofundando, em visitas futuras, os detalhes de cada passagem obscura. Não raro, recorro também a uma pesquisa histórica que corrobore - ou corrija - as impressões surgidas na entrevista, e já recorri também a entrevistas com parentes e amigos de certo cliente para quem escrevi uma autobiografia. Com esse material em mãos, coloco meu cliente em seu texto e...desapareço literariamente. Uma qualidade essencial ao fantasma, afinal, é ser invisível. 

A segunda e importante qualidade para um ghostwirter é o sigilo. Por mais que eu me encante pelo sucesso de um dos textos que psicografei para uma autobiografia, ela não pertence a mim e fui bem pago por ela. Atualmente, estou escrevendo dois textos como ghostwriter, um deles certamente terá boa repercussão, mas jamais direi a ninguém que obras são essas e quem são meus clientes. Outra qualidade essencial ao fantasma é permanecer no além-túmulo editorial.

Eis minha confissão: já fui um fantasma. Mas ainda atenderia às demandas terrenas com todo o prazer que o trabalho bem remunerado pode trazer a um escritor. Mea culpa, mea maxima culpa.

*Robertson Frizero é escritor, tradutor e dramaturgo. Coordena e ministra oficinas de Criação Literária na Sapere Aude! Livros, além de coordenar o Clube de Leitores da livraria. 

**Neste espaço, semanalmente, serão publicados textos de autoria dos clientes e leitores da Sapere Aude! Livros. Veja como participar aqui.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

CRÔNICA DA SEMANA: Traduttori Traditori

por Robertson Frizero

Caravaggio. São Gerônimo
Há um misto de admiração e ódio pelos tradutores. Isso, é claro, quando eles são de todo percebidos nos meandros dos livros que abnegadamente trazem para sua língua materna.

O trabalho de tradução é sempre falho e incompleto, pois essa é a natureza do processo de traduzir. Não há entre os idiomas - por mais que os tradutores automáticos tentem burlar isso - uma correspondência biunívoca entre vocábulos e estruturas; há aproximações, possibilidades, escolhas. Traduzir é, antes de tudo, escolher.

Não é simples a tarefa do tradutor. Há que respeitar o tom correto do texto original, as intenções do autor, a precisão vocabular possível. Mais ainda sofrem os corajosos que se dedicam a traduzir literatura e enfrentar o desafio de ler o que há por trás das escolhas do autor, as intenções ocultas, e reconstruí-las usando a língua dos leitores que, muitas vezes, jamais terão acesso aos originais daquela obra. E as palavras carregam forças ocultas, pesos aparentemente imperceptíveis mas que trabalham nos subterrâneos da compreensão do leitor, reforçando o caráter das propostas do autor original.

Os que traduzem poesia são quase-heróis.

Escrevo não como tradutor apenas, mas como leitor que ora se aventura pelo mundo espinhoso das traduções. Muitas vezes, em minhas tantas leituras de textos estrangeiros, passaram-me despercebidas essas reflexões que vi despertadas não só em meus recentes trabalhos mas, sobretudo, ao buscar no excelente Quase a Mesma Coisa, do escritor e tradutor italiano Umberto Eco, algumas respostas aos dilemas que enfrentei em minhas escolhas diárias no desafio da tradução. Como leitores, somos por vezes críticos muito ácidos do trabalho de tradução, já que mesmo sem conhecer a língua original de uma obra, é possível detectar problemas de tradução. E esquecemos que o bom tradutor jamais traduz apenas de uma língua para a outra - antes, trata-se de um processo de tradução de uma cultura para a outra, de uma época para a outra, de um público para outro. Por isso, os bons tradutores são muitas vezes os mais humildes e, ao mesmo tempo, os mais críticos em relação ao seu próprio trabalho - pois sabem que é praticamente impossível recriar em sua língua materna as sutilezas que qualquer língua estrangeira, como construtora de um outro mundo de falantes, sempre carrega.

Sei, mais que nunca, que todo tradutor é um traidor. Mas, sem esses traidores, que seria de nós, leitores, e nossas naturais limitações para ler na língua original todas as obras interessantes que há nas prateleiras mundo afora?

*Robertson Frizero é escritor, tradutor e dramaturgo. Coordena e ministra oficinas de Criação Literária na Sapere Aude! Livros, além de coordenar o Clube de Leitores da livraria. 

**Neste espaço, semanalmente, serão publicados textos de autoria dos clientes e leitores da Sapere Aude! Livros. Veja como participar aqui.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

CRÔNICA DA SEMANA: O balde d'água fria e o novíssimo escritor

por Robertson Frizero*


No balde, a inscrição: "Não Aceitamos Originais".
Geralmente, o que se encontra hoje em dia nas editoras é este pequeno balde de água fria, já no site:
"A Editora XXX no momento não está recebendo originais para avaliação. Agradecemos o contato e informamos que qualquer mudança nesse sentido será comunicada por meio de nosso site."

Os escritores que estão no início de carreira, ou aqueles que ainda nem conseguiram publicar o seu primeiro livro, acabam tendo a ideia de que publicar é impossível ou algo apenas para os “eleitos”. Seguindo a regra básica que um escritor certa vez leu em um biscoito chinês da sorte – para evitar desapontamentos, minimize as expectativas –, vale a pena ter a exata noção de como funciona o mercado editoral brasileiro hoje. Mesmo sem ser um grande conhecedor do assunto, arvoro-me a listar aqui um pouco do que esses últimos cinco anos trabalhando intensamente com livros – e quase trinta anos desde a publicação do meu primeiro texto – me deram de sabedoria:

·         A preocupação primeira do escritor deve ser a de escrever. Não falo aqui da ideia romântica de escrever para guardar nas gavetas e ter sua obra descoberta por algum pesquisador do futuro. Mas quando o seu primeiro texto for publicado, você precisará de outros para continuar a boa onda. Além disso, é unanimidade entre os escritores honestos – consigo mesmo e com o público – que é no meio de muita escrita ruim que encontramos aquela frase lapidar ou a ideia originalíssima que tornará nosso original algo publicável;

·         Não há escrita sem reescrita. O primeiro rascunho raramente é o texto definitivo. Se você escreveu um texto e o considera uma obra-prima, use o método Hemingway das gavetas: o famoso escritor americano, reza a lenda, tinha duas gavetas em sua escrivaninha de trabalho: na primeira, ele deixava repousar os textos recém-escritos por pelo menos três meses. Depois desse período, ele relia os textos, cortava, reescrevia e colocava-os na outra gaveta, onde eles aguardavam por mais um tempo para uma terceira e última revisão. E não falamos aqui de revisão gramatical – isso é tarefa que todos os escritores devem deixar para um profissional fazer, de preferência alguém sem vínculos afetivos com o seu texto;

·         O mercado editorial está aquecido, mas é bom saber que o Brasil é um país que ainda lê pouco e adquire pouca literatura; a tiragem de um escritor novato no Brasil costuma girar em torno de trezentas a quinhentas cópias; com dificuldade, costuma-se vender a primeira tiragem ao longo de dois anos. Nos EUA, um autor desconhecido é lançado, em geral, com dez mil cópias, mesmo nesses tempos de e-book;

·         Tudo isso muda se o autor dá a sorte de emplacar seu título em um edital para aquisição do governo – há chamadas em nível federal, estadual e até de alguns municípios; costuma-se convocar obras de literatura infantil e juvenil, mas há também outras convocações que abrangem livros para adultos, algumas até com temática definida – cultura afro-brasileira, literatura LGBT, etc. Quando se consegue essa proeza, o livro pode alcançar tiragens de dezenas de milhares de exemplares;

No balde, a inscrição: "Só aceitamos indicações de agentes literários".
·   Uma vez o escritor considere que seu texto está pronto, é hora de procurar uma editora. E basicamente há alguns tipos de editora no mercado:

o   Grandes corporações editoriais – geralmente com diversas editoras vinculadas, muitas delas multinacionais do livro, costumam apostar alto em seus títulos mais vendáveis e tem a vantagem de ter estabelecidas boas redes de distribuição e divulgação, ainda que existam gigantes do mercado que têm problemas notórios de fazer chegar às livrarias certos títulos que lotam seus estoques. Costuma ser muito difícil publicar por uma dessas editoras, e em geral o escritor só chega a elas por meio de indicações de agentes literários, de personalidades de notório saber, de premiações de relevo na área da literatura – ou se o autor for uma celebridade, instantânea ou não. Mas daí entraríamos no assunto de como o mercado dos livros sazonais funciona e não seria o caso de detalhar aqui... A biografia do cantor juvenil do momento sempre encontrará uma grande editora para publicá-lo. Elas costumam trabalhar estritamente com suas linhas editoriais, mas em geral abrangem quase todos os gêneros – exceto novos poetas, já que poesia é considerada cada vez mais um gênero que não tem apelo comercial;

o   Editoras de porte médio – costumam ter um bom catálogo e investir em sua expansão, mas não têm, em geral, muito capital para investir em todos os títulos que lhe são oferecidos. Trabalham estritamente nas linhas editoriais a que se propõem. As editoras mais sérias vão investir no autor, comprar os direitos autorais pelo livro, trabalhar com ele na divulgação e distribuição;

o   Editoras “Pesque-e-pague” – há inúmeras editoras no mercado que irão concordar em publicar seu livro caso você entre com uma “contrapartida”; algumas, mais sérias, ainda terão o escrúpulo de recusar originais ruins, mantendo um catálogo de qualidade e valorizando, assim, os que ali publicam ao dar à editora um bom nome na praça; mas há aquelas que proporão ao escritor iniciante o sonho da publicação caso ele adquira quinhentos exemplares do livro, por exemplo – algo que custaria mais de dez mil reais em valores atuais – o que em geral já bastará para pagar os custos da editora e lhe dar algum lucro. O resultado, quase sempre, é um autor frustrado ao longo de alguns meses, com quatrocentos livros ou mais entulhando a garagem ou o quarto dos fundos de casa. Fuja delas;

o    Editoras universitárias – por ter um propósito de divulgação do saber, são regidas por regras próprias, ditadas pela instituição mantenedora e pelo conselho editorial. Costumam privilegiar a produção acadêmica, raramente publicando literatura. São respeitáveis, mas costumam ter sérios problemas de distribuição e nenhuma divulgação;

o   Editoras “Eu e meus gatos” – Em geral, são editoras pequenas que foram fundadas para publicar a obra do próprio dono ou, no máximo, dos amigos mais próximos. Nem tente publicar com eles sem pertencer ao clube: se te publicarem, é capaz de boicotarem a tua obra para que ela não concorra com a deles. Algumas delas até conseguem ótima divulgação – dos livros do dono e de seus “gatos”, não do teu livro;
No balde, a inscrição: "Seu original é maravilhoso.
Publicamos ele por R$ 8.000,00."
o   Editoras de nicho – São editoras de pequeno ou médio porte com uma linha editorial bem definida e muito limitada. São, em geral, muito sérios e com ótima visão comercial do nicho em que trabalham. Não tente oferecer a elas um original que não segue a linha editorial da casa. Mas se der a sorte de ter o que eles procuram, eles irão tratar com carinho e entusiasmo o seu original. Não espere grande remuneração deles, são em geral batalhadores buscando um espaço ao sol, mas também não corres grande risco de ser explorado ou ver sua obra esquecida no depósito. Em geral, são ótimos parceiros, mesmo quando têm grande dificuldade de divulgar e distribuir seus livros;

o   Editoras “Caça-níqueis de concurso” – Acredite: há editoras no Brasil que vivem de concursos literários que elas mesmas organizam. Cobram uma taxa de inscrição dos participantes e o prêmio do concurso é a publicação em uma antologia – às vezes, também rola um troféu desses que se compra em loja de gravação de medalhas, não raro um diploma... O incauto autor novato fica feliz com a sua inclusão na antologia, com o fato de seu texto ter sido escolhido em um concurso literário de nome pomposo, mas a verdade é que para participar da antologia o escritor terá que adquirir um número tal de exemplares – ou seja, a editora não perde nunca. Daí a antologia é lançada em um evento, o autor novo leva seus parentes e amigos mais próximos para a empreitada, mas a verdade é que esses concursos não irão gerar prestígio algum, nem a antologia será lida por alguém que possa fazer um convite para uma publicação mais séria. Fuja disso;

o   Editoras heroicas – Há editoras no Brasil que são conduzidas por uma única pessoa, ou por um grupo pequeno de desvelados editores. Não raro, são gente entusiasmada e idealista, que fundou uma editora para tentar oferecer espaço para gente talentosa. Não têm capital para investir, e talvez precisem da contrapartida do autor, mas se empenharão tanto na divulgação do livro que, por vezes, vale a pena tentar. Conheci algumas dessas almas abnegadas e queria ganhar um dia na loteria para enchê-los de dinheiro e dizer apenas: “façam o sonho acontecer”;

o   Autopublicação – há diversos sites nacionais e estrangeiros que facilitam imensamente a vida do autor que quer fazer uma autopublicação, quer seja em papel ou em meio eletrônico (e-book). A Amazon, por exemplo, tem parceria com a CreateSpace e possibilita que o autor faça todo o processo de publicação ele mesmo, e de graça, do início ao fim da empreitada – com direito a ISBN, venda pelo site da Amazon nos EUA, Reino Unido e Europa Continental e versão em e-book. O problema da autopublicação é o de sempre: se o autor tem experiência em publicar, bom conhecimento de design para fazer uma capa de bom gosto, um bom revisor para auxiliar nas questões gramaticais, etc., autopublicar-se continua sendo tão válido quanto foi para autores como Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, James Joyce e outros tantos que no passado optaram por esse caminho para se lançar na literatura. Mas a questão da distribuição e divulgação recairão totalmente no escritor, é bom lembrar. Vale a pena para aquelas obras de pouco apelo comercial e se a intenção do autor é divulgar esse trabalho sem sonhos de que ele vire um bestseller. E com a vantagem de que você decide a tiragem que quer, já que a impressão é por demanda.
No balde, a inscrição: "Autopublicação mal-feita".
·         Antes de buscar a publicação, talvez seja interessante para o autor novo que ele dedique alguns minutos a meditar na carreira literária que ele quer desenvolver. Isso poderá levá-lo por esse ou aquele caminho, a tomar esta ou aquela decisão. Algumas das pedras que aprendi a usar na construção da minha carreira literária – que está apenas no início, ainda muito incipiente – foram esses:

o   Se você não é uma celebridade surgida em um reality show recente ou em algum caso bizarro de vídeo vazado na Internet, um primeiro passo deverá ser o de fazer seu nome conhecido. Para quem quer vencer nas Letras, os concursos literários são uma boa tentativa. Mas procure os concursos sérios, que não cobram taxa de inscrição e são, em geral, organizados por entidades governamentais. Há também concursos honestos promovidos por empresas privadas, livrarias e até editoras, mas em geral essa é a primeira marca de um concurso honesto: não cobrar dinheiro dos participantes. Esses concursos costumam oferecer como prêmio a publicação, e ter seu nome vinculado a eles é uma ótima linha a gerar no seu currículo. Não raro, há premiações em dinheiro – algumas na casa das dezenas de milhares de reais, um bom impulso para quem quer publicar seu livro. Publicar em revistas (em papel ou eletrônicas) também é boa vitrine;

o   Outro caminho interessante é o dos editais de fomento à escrita. A Biblioteca Nacional é um bom exemplo, com a sua Bolsa de Criação Literária, anualmente cedida a vários novos escritores Brasil afora. Estados e municípios também costumam ter seus fundos setoriais de incentivo à cultura, que quase sempre abrangem a literatura, muitos deles com verba para publicação de obras inéditas;
o   Se você não está seguro da sua escrita, ou é parecido comigo – alguém sempre ávido a aprender mais, que não se considera pronto nunca... – , um bom passo é fazer oficinas literárias, cada vez mais diversificadas e difundidas pelo país. Fui aluno e sou professor de oficinas de Criação Literária e posso afirmar que as oficinas trazem inúmeros benefícios a quem quer seguir na carreira de escritor – desde o conhecimento técnico até a lição da humildade diante de sua própria produção. E não custa lembrar: escritor que se preze é um ávido leitor, sempre; 
No balde, a inscrição: "Seu texto precisa de revisão..."

o   Tente com as editoras que aceitam originais: faça uma busca na Internet e veja quais editoras não têm em seus sites mensagens como aquela que inicia este texto... Siga à risca o que eles solicitarem: se pedirem uma cópia em papel, envie a mais caprichada possível; se pedirem apenas uma sinopse, faça algo que venda bem o seu livro, sem expressões de marqueteiro barato (“Este livro é a maior obra literária deste século” ou “Este livro vai estremecer o mercado editorial”). Eu desenvolvi um padrão de projeto que tenho apresentado às editoras com bons resultados; tenho enviado antes mesmo de mandar o original completo, pois o projeto em si é capaz de despertar ou não o interesse para a obra;

o   Dependendo do gênero em que se escreve, talvez o seu nicho nem esteja no Brasil. Há casos de autores brasileiros que estão escrevendo em inglês ( ou traduzindo seus textos para essa língua) por saber que nos EUA e Reino Unido seus originais serão melhor analisados que aqui. Não custa recordar que editoras são negócios e ninguém vai publicar o seu original se não vir nele ou uma possibilidade fantástica de vendas ou algo tão original e de qualidade artística tão única que mereça ser publicado mesmo sem garantia de sucesso comercial. É claro que a primeira hipótese abrange quase a totalidade dos casos...

Pode parecer cruel o que escreverei para encerrar esse texto – que nem uma crônica é, de fato –, mas o segredo é perseverar, pegar aquele balde d’água fria que tantas vezes o novíssimo escritor encontra no caminho e lavar com ele o rosto, para despertar mais forte e convicto de que se quer mesmo ser escritor profissional. Enquanto isso não acontece, é importante usar os termos corretos quando se lida com as editoras: o livro ainda não publicado é chamado pelo mercado de original e escritor que nunca publicou nada é aspirante a escritor. Corrija-se se, como eu no início, não usas esses termos corretamente.

E não custa lembrar o conselho de Neil Gaiman, um dos maiores autores contemporâneos de Fantasia: não largue o seu emprego ainda...


*Robertson Frizero é escritor, tradutor e dramaturgo. Coordena e ministra oficinas de Criação Literária na Sapere Aude! Livros, além de coordenar o Clube de Leitores da livraria. 

**Neste espaço, semanalmente, serão publicados textos de autoria dos clientes e leitores da Sapere Aude! Livros. Veja como participar aqui

quarta-feira, 14 de maio de 2014

CRÔNICA DA SEMANA: A urgência de publicar e o papel do editor

por Robertson Frizero

Vender livros em um país de não-leitores é uma tarefa árdua e, por vezes, muito ingrata. E tudo se torna ainda mais complicado quando o que se quer vender é um texto mais elaborado, com um tema menos óbvio e fácil - um livro que, enfim, fuja aos padrões daqueles que efetivamente vendem milhares de cópias no Brasil.

A tarefa de vender livros é dura por conta de toda uma engrenagem de mercado na qual se somam os custos elevados de produção, as dificuldades de distribuição e venda, as dificuldades por vezes impostas por algumas grandes livrarias e o difícil convencimento do leitor brasileiro para que adquira - e não copie - um livro de qualidade. Do preço final de capa, a fatia que cabe à editora é mínima, por vezes menor até que o valor pago aos autores. Nessa difícil matemática do mercado editorial, as editoras ditas comerciais precisam vender e, por isso, dependendo de sua filosofia e linha editorial, deixam de lado a qualidade e abraçam o apelo dos títulos mais populares para poder sobreviver.

Em meio a essa luta entre o mar dos leitores e o rochedo das grandes editoras, o escritor iniciante sente-se como o marisco que precisa se agarrar ao primeiro aceno de bondade para ver sua obra publicada. Nesse fiapo de esperança, muitas editoras pequenas veem sua fonte de recursos - mas pouco funcionam como editoras no sentido clássico do termo. Muitas delas, a bem da verdade, agem como meros prestadores de serviço: o escritor novato, cheio de esperanças de futuro e urgência de publicar seus escritos - que, muitas vezes, são frutos de anos de trabalho dedicado -, submete-se a bancar parte ou a totalidade dos custos de publicação da obra; como fornecedora de serviços, interessada em ganhar dinheiro pela tarefa executada, a editora não faz ressalva alguma sobre o teor do texto, a capa, os detalhes de edição, fazendo tudo como o cliente preferir; como não há investimento dessas editoras na obra lançada, também não há qualquer esforço de divulgação ou mesmo de posicionamento do livro no mercado. Não raro o resultado são escritores com seus livros publicados como haviam sonhado, mas com centenas de cópias empacotadas da obra em sua própria casa, sem recursos para distribuir e vender seus livros à espera de leitores.

Talvez o maior mal que tais editoras causem ao escritor iniciante seja justamente a falta de uma avaliação maior dos originais. O papel do editor é, em verdade, o de trazer uma luz de realidade sobre a obra que o escritor acalentou com tanto carinho mas que, não raro, precisa de ajustes e do olhar distanciado de um profissional do mercado livreiro. O bom editor é, antes de tudo, um leitor voraz e um apaixonado por livros, que conhece bem o labor literário ao ponto de apontar caminhos ao invés de somente oferecer ao escritor uma carta de recusa pré-fabricada. Seu papel de "primeiro leitor" pode ser decisivo para transformar uma boa ideia em um livro de sucesso. Mas isso também significa que muitos escritores que submeterão seus trabalhos a essas editoras comerciais receberão um "não" como resposta - e aprender com as respostas negativas a um trabalho que nós, escritores, consideramos pronto é uma virtude difícil de conquistar.


Em um momento no qual é tão fácil a autopublicação, quer seja em papel ou em e-book, facilidade oferecida com qualidade por empresas como a Amazon, é de se questionar qual o objetivo do escritor antes de se submeter a essas editoras-prestadoras-de-serviço, que não tem capital ou não estão dispostas a investir nos autores. Se a intenção é registrar em papel sua obra, mesmo sabendo que ela não é comercialmente atrativa; ou se a intenção é editar a obra para divulgá-la e, quem sabe, buscar posteriormente uma editora que o adote em seu elenco de autores, uma autopublicação sob demanda talvez seja o que se necessita naquele momento. É óbvio que há muitas editoras pequenas, porém honestas, atuando com lisura no mercado, lutando bravamente para se manter e com propostas sinceras de dar espaço a bons autores. Mas também há outras que deveriam ser interditadas pela polícia, com seus concursos literários fajutos que servem apenas para arrecadar dinheiro dos participantes e nenhum retorno concreto oferecem às carreiras dos "premiados" além da publicação de antologias que ninguém lerá além do círculo de amigos dos pobres autores publicados. Há muitos vendedores de ilusão no nosso vasto mercado editorial, que apesar de tudo cresce a olhos vistos. É preciso aprender a separar o joio do trigo, a fugir dos cantos de sereia.

Ao escritor iniciante, cabe a escolha: entregar sua obra às facilidades dos "prestadores de serviço" ou submeter-se ao escrutínio das editoras comerciais. O grande desafio, na primeira opção, é fazer o livro circular além dos limites de seu círculo de amigos e contatos; na segunda, é ter o controle necessário para compreender o que há por trás de cada avaliação de sua obra - que será, enfim, julgada não só pelo ponto de vista estético ou pela importância do tema escolhido, mas também por questões mais prosaicas que vão desde a sua possibilidade de vendas em um mercado editorial cada vez mais competitivo até às reais possibilidades financeiras daquela editora em assumir o seu projeto de publicação. De qualquer modo, é essencial, para quem sonha em um dia ser um escritor reconhecido, a humildade de saber que ninguém nasce um gênio.


*Robertson Frizero é escritor, tradutor e dramaturgo. Coordena e ministra oficinas de Criação Literária na Sapere Aude! Livros, além de coordenar o Clube de Leitores da livraria. 

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quarta-feira, 7 de maio de 2014

CRÔNICA DA SEMANA: Escrever para crianças

"Eu estou quase inclinado a estabelecer esta idéia como um cânone, a de que uma história infantil que só é apreciada por crianças é uma história infantil ruim. As boas histórias sobrevivem. Uma valsa que você só aprecia enquanto está valsando não é uma boa valsa".
(C. S. Lewis, autor de As Crônicas de Narnia,
 em seu ensaio intitulado On the Three Ways of Writing for Children)



O escritor britânico C. S. Lewis, autor da fantástica série de livros infantis As Crônicas de Narnia e amigo pessoal de J. R. R. Tolkien, o gênio que concebeu a colossal saga de O Senhor dos Anéis, colocou muito apropriadamente, em um ensaio intitulado Sobre as Três Maneiras de Escrever para Crianças, que a pior forma de se escrever para este público é seguir a máxima mercadológica de "dar ao público o que ele quer". Na visão do escritor, buscar adivinhar o que o público infantil deseja é, em geral, empobrecer qualquer mensagem que se queira expressar - pois em geral os adultos pouco ou nada saber do que realmente se passa na cabeça dos pequenos. Temos nós, adultos, uma visão muito distorcida do que seja a infância, embora tenhamos passado por ela - já que predomina a noção errônea, em nossa sociedade, de que se tornar adulto é abandonar todo e qualquer traço do que éramos em nossa infância.

Quais seriam, então, para o autor britânico, as formas mais valorosas de escrever para crianças? Ele cita duas maneiras que pôde observar na obra de vários autores contemporâneos seus, e mesmo anteriores a ele, que possibilitaram o sucesso de tais escritos junto ao público infantil. A primeira, observada na forma como surgiram os livros de Tolkien e Lewis Carroll, consiste em escrever a partir de uma história contada para uma criança em particular - uma maneira de escrever que lembra aquela primeira, alerta Lewis, mas que neste caso é um "dar ao público o que ele quer" voltado para uma pessoa concreta, uma criança em especial, com a qual se pode manter uma relação real de oferta e retorno. Não se trata, nesse caso, de escrever para "crianças" - tomando-se este substantivo plural como significando toda uma espécie em particular, distinta dos "adultos" - mas, sim, para uma criança que irá reagir a qualquer tentativa sua de narrar uma história como "se estivesse contando para uma criança" (uma ideia que quase sempre leva a uma redução vocabular e simbólica, verdadeiro atalho para o enfado ou a rejeição das crianças em relação ao que se está a narrar; um erro, aliás, cometido mesmo por boa parte dos livros didáticos escritos para as séries iniciais).

O segundo modo de escrever para crianças, diz C. S. Lewis, é o de escrever uma "história para crianças" por se sentir que este é o único gênero possível no qual aquele enredo poderia ser contado. Esta colocação de Lewis faz-me recordar de todos os livros de Monteiro Lobato que li na infância e que, já depois dos trinta anos, pude voltar a ler já com os olhos de adulto. São histórias que não se tornaram tolas com o tempo, que ainda estão plenas em significados e permitem diversos níveis de compreensão - como todos os clássicos da literatura infantil que posso recordar. Não creio, por exemplo, que Charles Perrault tenha escrito histórias como "Pele de Asno" - na qual uma princesa foge do castelo disfarçada sob uma pele de asno para fugir das ameaças incestuosas do rei, seu pai - para crianças; mas elas oferecem várias formas de interpretação, diversos pontos de interesse de acordo com a idade e a capacidade de compreensão do leitor. Talvez por isso eu tenha escrito apenas uma única história para crianças - a única que me pediu para ser escrita pela arte nada tola do conto infantil.

E como andam os livros infantis que estão a fazer desse gênero um campeão de vendas mesmo no Brasil, um país que não se pensa através da literatura? Felizmente, há bons lançamentos, até mesmo reedições de histórias clássicas, como as de Andersen, Perrault e Lobato, em publicações que resgatam o texto e ilustrações originais. E nosso país é pródigo em escritores de livros infantis de qualidade, como Ruth Rocha e Ana Maria Machado (sendo injusto e citando apenas duas de minhas autoras preferidas). Ainda assim, o que mais se vê nesse mercado ainda são umas tolices multicoloridas vendidas como livro infantil - não raro estendendo a armadilha da aparência paradidática para capturar pais e mães desavisados.

Há, por exemplo, uma profusão de livros cujos personagens principais são bruxas e bruxos - na poeira do grande sucesso editorial infanto-juvenil da década, a ótima série Harry Potter, da inglesa J. K. Rowling -; mas são quase sempre pouco inspirados, alguns deles repletos de lugares-comuns e, pasmem, até mesmo generalizações e preconceitos que jamais deveriam constar em publicações voltadas para um público em formação. Além desse filão, existe uma avalanche de livros infantis baseados em famosos personagens de desenhos animados - nenhum problema com isso, se o apelo não fosse tão-somente o protagonista, por si só, exposto em conteúdos sem nexo ou mesmo histórias amorais e, em geral, tolas. As meninas, em especial, estão sendo bombardeadas com livrinhos sobre princesas e bonecas em uma quantidade tão imensa que deveriam fazer os pais desconfiarem dessas publicações como mero merchandising para vender brinquedos. Nada dos jogos de palavras, das cadências divertidas e sons repetidos que despertam na criança as possibilidades do uso da linguagem como diversão. Parece que, aos olhos de algumas editoras infantis e, infelizmente, da maioria dos pais, livro infantil é sinônimo de livro colorido. O pior de tudo são os livros de escritores renomados, celebridades instantâneas, cantores e outros famosos que se arvoram a escrever livros infanto-juvenis sabe-se lá porquê - talvez apenas para completar aquelas metas míticas de "ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro".

E as tolices em forma de adaptação de textos clássicos? Há desde livros que se propõe a explicar para as crianças escolas filosóficas complexas como o existencialismo (para quê?) de Jean Paul Sartre, o autor dos indigestos A Idade da Razão e A Náusea, em um livro que transforma o filósofo e sua companheira em Sartrezinho e Simoninha de Beauvoir, a adaptações modernosas. como certo livro baseado na Lenda dos Cavaleiros da Távora Redonda que oferecia "uma versão divertida do triângulo amoroso de Artur, Guine e Lance (sic!)" para um público que talvez jamais tenha ouvido falar da história original. Mais que isso: há algumas adaptações tenebrosas, no sentido etimológico do termo, que transformam em sombra e escuridão as obras literárias mais emblemáticas do Ocidente. Mas todos eles são obras que vendem, e muito;  sem exceção, são livros sempre bem coloridos.

Bom ou ruim, o livro infantil é um instrumento importante na construção de futuros leitores. Mas o objeto estranho, de capa dura e folhas de papel unidas por um emaranhado de costuras, só se tornará amigo da criança se for um companheiro também fiel dos adultos que a cercam. O livro infantil é para ser lido, primeiramente, pelos pais para seus filhos, pelos professores para seus alunos, pelos adultos para as crianças que, despertadas pela curiosidade de saber como saem daqueles papéis estranhos tantas aventuras divertidas e fantásticas, irão costurar aos poucos uma relação de amizade com o livro. Não basta comprar a publicação mais ilustrada e multicor da livraria na esperança de que ela, ser inanimado, consiga sozinha transformar as crianças em ávidos leitores.
*Robertson Frizero é escritor, tradutor e dramaturgo. Coordena e ministra oficinas de Criação Literária na Sapere Aude! Livros, além de coordenar o Clube de Leitores da livraria. 

**Neste espaço, semanalmente, serão publicados textos de autoria dos clientes e leitores da Sapere Aude! Livros. Veja como participar aqui

quarta-feira, 30 de abril de 2014

CRÔNICA DA SEMANA: Recomendações

Não pegue sereno.
Não ande descalço.
Não brinque com fogo.

Não pise na grama.
Não pise na bola.
Não cuspa no chão.

Não dê esmola nos sinais.
Não alimente os animais.

Não esqueça de apagar a luz.
Não esqueça de pagar o carnê em dia.
Não esqueça de colocar o cinto de segurança.

Não fume.
Não buzine.
Não entre.

Não perca a promoção!
Não deixe de assistir!
Não fique fora dessa!

Não fale com estranhos.

Antes de dirigir, não beba.
Antes de ligar, leia o manual.

Antes de entrar,
verifique se o mesmo
encontra-se neste andar.

Vá pela sombra.
E não dê ouvidos ao que essa gente fala.

*Robertson Frizero é escritor, tradutor e dramaturgo. Coordena e ministra oficinas de Criação Literária na Sapere Aude! Livros, além de coordenar o Clube de Leitores da livraria. 

**Neste espaço, semanalmente, serão publicados textos de autoria dos clientes e leitores da Sapere Aude! Livros. Veja como participar aqui