quinta-feira, 2 de maio de 2013

Como escrever um livro sobre como escrever um livro sobre como escrever um livro...

A ideia desta seção é sempre trazer livros curiosos, bizarros ou cuja capa tenha sido, no mínimo, um grande erro conceitual. Mas que dizer de um livro que se propõe a ser um livro para ajudar autores que querem escrever um livro sobre como escrever um livro? Antes que o querido leitor deste blog se pergunte, respondemos com firmeza: não, não estamos no filme 'Quero ser John Malkovich'...

*A coluna foi publicada excepcionalmente na quinta-feira por conta do feriado de Primeiro de Maio.

Dentro do livro, Nietszche e a paz entre alemães e russos

Postais de Rapallo, Itália
 Nossa equipe encontrou dentro de um dos livros antigos comercializados na internet pela Sapere Aude! Livros estes cartões postais da cidade italiana de Rapallo, usados como marca-páginas. Embora não estejam datados, as imagens levam a crer que se trata de material da década de 1960.

Rapallo é uma pequena cidade costeira na região da Ligúria, próxima a Gênova. Entrou para a história por ter sido a cidade de dois importantes tratados: em 1920, italianos e integrantes das três repúblicas que depois formariam a Iugoslávia assinaram um acordo que pôs fim a problemas de fronteira entre os países; em 1922, alemães e russos assinaram um importante tratado de paz pelo qual renunciavam a quaisquer reivindicações territoriais e financeiras decorrentes da Primeira Grande Guerra. Por debaixo dos panos, em um adendo secreto do chamado Tratado de Rapallo, permitia aos alemães treinarem suas tropas em território russo, o que ia contra as sanções impostas à Alemanha pelo Tratado de Versalhes.

Outra curiosidade sobre Rapallo: caminhando por suas estradas é que o filósofo alemão Friedrich Nietszche teria elaborado as ideias para o seu "Assim Falou Zaratustra", segundo relato de sua irmã Elisabeth Föster-Nietszche. 

Dentre os moradores ilustres da cidade está o poeta estadunidense Ezra Pound, que viveu ali nos anos 1930.

*A coluna foi publicada excepcionalmente na quinta-feira por conta do feriado de Primeiro de Maio.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Com a palavra... J-M. G. LE CLÉZIO

"Um dos maiores prazeres na vida é sentar-se à mesa e escrever, seja lá onde for. Eu não tenho um escritório, eu escrevo em qualquer lugar. Ponho uma folha de papel sobre a mesa e viajo. Literalmente, escrever para mim é como viajar. É sair de mim mesmo e viver outra vida; talvez uma vida melhor."

- Jean-Marie Gustave Le Clézio é francês de nascimento, mas considera as Ilhas Maurício sua pátria. Em 2008, tornou-se o primeiro escritor de expressão francesa a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura em vinte e três anos.


segunda-feira, 29 de abril de 2013

Meu livro preferido é... O MORRO DOS VENTOS UIVANTES, de Emily Brönte


O MORRO DOS VENTOS
UIVANTES, de E. Brönte
(L&PM)
Não é uma linda história de amor. Juro, leitor. Sei que você deve ter visto adaptações para o cinema e a televisão que o fizeram pensar em alguma história açucarada entre os protagonistas Heathcliff e Catherine. Mas não é disso que o livro trata. Escrito em 1847 por Emily Brontë, o livro chocou os seus contemporâneos, entre outras coisas, por ter personagens orgulhosos e vingativos.
O livro não é escrito em seqüência. Ele começa quando Lockwood, um dos narradores, aluga uma propriedade no campo.Lockwood decide fazer uma visita de cortesia ao seu senhorio e logo se arrepende: chega no meio de uma horrorosa briga de família. Para piorar, uma tempestade e o cair da noite impedem que volte pela estrada enlameada. E como se não bastasse, uma menina-fantasma aparece na janela do quarto que lhe dão para dormir...
É em busca da resolução do duplo mistério - quem é o fantasma e como aquela família ficou tão selvagem e disfuncional - que Lockwood interroga uma antiga empregada da família, Nelly, que lhe conta a história da casa (chamada Wuthering Heights, Alturas Uivantes). É uma história sobre algo muito concreto, real, que experimentamos na nossa vida: os segredos de família, as suas conseqüências e a força que o perdão tem de romper com a repetição de uma trajetória de infelicidade.
Então querido leitor, se você tinha preconceito com esse livro por achar que era leitura de moçoilas casadoiras ou coisa de vampiro Edward e Bella, por favor, abandone essa ideia e dê uma chance à esse clássico. Heathcliff e Catherine são muito mais do que dois rostinhos bonitos, eu lhe garanto.



Patrícia Degani é Mestre em Filosofia Antiga e Medieval pela PUCRS, publicitária de formação e uma das coordenadoras da Breviário Cursos. O que mais admira na Sapere Aude! Livros é o ambiente da loja e a simpatia no atendimento.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

"Não há nada de novo no novo": a poesia neoformalista



Há uma nova corrente na poesia norte-americana que se contrapõe a todas as tendências que se poderia esperar dos poetas do século XXI. Seu nome surgiu dos textos daqueles que criticavam seu comportamento chamado de materialista e conservador - e de um ensaio assinado por Dana Gioia, em 1987, no qual o poeta e crítico literário estadunidense defendia as idéias dos novos poetas ao apontar os erros e descaminhos da chamada poesia pós-modernista.


A nova poesia cujo surgimento Gioia louvava era o oposto das experimentações por vezes contrárias à própria idéia de texto poético como até então se entendia; contrapunha-se, nas palavras do crítico estadunidense, ao "informalismo" e "aformalismo" da poesia pós-moderna, cuja "canonização" teria levado à "degradação da linguagem poética, prolixidade da lírica, falência do modo confessional, falha em estabelecer uma estética significante para uma nova narrativa poética e a recusa de uma textura musical dentro do poema contemporâneo".


Os neoformalistas, como viriam a ser conhecidos esses novos poetas, pregam um resgate dos formatos canônicos de metrificação, mas a partir de um repensar contemporâneo sobre tais formas. Tal retorno ao passado da poesia - um regresso não tão distante, já que as formas poéticas mais tradicionais jamais deixaram de ser admiradas e mesmo praticadas pelos poetas do século XX - não é, contudo, um retrocesso temático, já que os neoformalistas escrevem, em geral, sob um ponto de vista mais autobiográfico, mas usando elementos cotidianos e contemporâneos para tecer uma lírica inovadora, bem como de temas sociais sem que, contudo, caia nas armadilhas fáceis da poesia engajada. em outras palavras, eles pregam o retorno das rimas, do ritmo e das formas poéticas consagradas, para com essas formas tradicionais cantar o mundo em que vivemos.


O neoformalismo, como era de se esperar, encontrou seus detratores. A maioria deles acusa os neoformalistas de ressuscitar a forma em detrimento das imagens poéticas, mas há até mesmo os que associam o resgate desses novos poetas aos versos jâmbicos com uma forma de "fascismo literário". Argumentam eles, os que renegam os neoformalistas, que ritmos interessantes e sonoridades oriundas da mera junção de palavras podem existir mesmo em textos sem qualquer sentido. Um de seus maiores opositores, Ira Sadoff, diz em seu ensaio Neo-formalism: a Dangerous Nostalgia que os "poemas que privilegiam o som e a métrica são conservadores não tanto por privilegiarem a tradição, mas por descontextualizarem a poesia". Na visão de Sardoff, o fato de os neoformalistas narrarem o cotidiano da vida corrente por meio de "versos metricamente perfeitos" é uma forma de "diminuir as ambições da arte".


Para fazer uma avaliação mais abalizada, sem dúvida faz-se necessário ler os poemas dos neoformalistas. Como em todas as chamadas escolas literárias, há poemas de uma inventividade cativante e outros que são dispensáveis. Mas, como nesses versos metrificados e rimados, relembrando as críticas de Sadoff, não é também possível escrever toda uma poesia em versos livres que não faça o menor sentido? Ou serão os versos livres uma garantia prévia de que o poeta está cumprindo "as ambições da arte" e atingindo conteúdos superiores de entendimento e profundidade poética?


Parece haver na crítica aos neoformalistas um retrato do preconceito que gira em torno da pseudo-liberdade em que se deita a chamada arte pós-moderna, na qual seu espírito fragmentado e acolhedor de todas as possibilidades é excludente, em verdade, das formais mais tradicionais de poesia - e mesmo de narrativa em prosa -, como se não fosse mais possível a um escritor contemporâneo criar textos novos a partir de ferramentas consagradas pelo cânone literário. Sobre esse preconceito, aliás, há um divertido poema de um dos neoformalistas mais atuantes, George Held, chamado Some Editors, no qual ele fala de suas frustrações na tentativa de publicar seus poemas metrificados:


Some editors reject and chide me
Alguns editores rejeitam-me e ralham
'Send us no rhyme and no meter'.
'Não nos mande rima ou metrificação'
They'd turn down Frost, Yeats and Heaney;
Dispensariam Frost, Yeats e Heaney
I pray they're turned down by St. Peter
Rezo para que eles sejam dispensados por São Pedro.

René Magritte - "O Poeta Recompensado" (1956)
Como diz o verso de Held, alguns dos editores contemporâneos dispensariam até mesmo a poesia de mestres como "Frost, Yeats e Heaney", caso eles fossem hoje jovens poetas em busca de publicação, pela simples razão de eles escreverem usando rimas e métrica. Estarão as profundezas filosóficas dos poemas de Frost destituídas de importância porque ele contava as sílabas métricas? Teriam sido mais valorosos os poemas de Yeats caso ele não se preocupasse com as rimas? As respostas a tais perguntas parecem simples e apontam para uma constatação: os modernistas deixaram-nos uma herança cruel, uma necessidade incontestável de buscar a inovação a qualquer preço. Não só na literatura, mas também em outras tantas artes, essa total tirania da novidade fez com que os iconoclastas fossem laureados muitas vezes apenas por quebrar ícones, e não por conta de uma capacidade sua de construir novas formas em que a arte se renovasse para o tempo presente. Nesse mesmo sentido, muitos artistas de valor acabam sendo desprezados pelo simples motivo de criarem suas obras sem esquecerem por completo dos alicerces nos quais a arte foi construída ao longo dos tempos. Talvez seja este o caso de alguns desses poetas neoformalistas, cuja mera menção a rimas, versos metrificados e estrofes cause a repulsa de seus detratores.


Mas, será que ainda há coisas realmente novas por criar? Talvez fosse interessante deixar que o poema Nothing New, do neoformalista Michael Curtis, traga algumas luzes a este questionamento pertinente nesses tempos de pós-modernidade:


There is nothing new in the new;
Não há nada de novo no novo;
There never will be, and never was.
Nunca haverá, nem nunca houve.
Never has novelty told the truth;
Tampouco a novidade disse a verdade;
Novelty is never new, because
A novidade nunca é nova, porque
In the moment of making, new
No momento em que são feitas, as novas 
Things are old, than older: This is true.
coisas são velhas, depois mais velhas ainda: isto é fato.

*Texto de Robertson Frizero - escritor, professor de Criação Literária e Mestre em Letras pela PUCRS.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Arnold e as ausências presentes



Hans-Ulrich Treichel
Hans-Ulrich Treichel é um autor alemão contemporâneo cujo texto é sempre marcado por uma inesperado humor e por traços autobiográficos que, longe de servir a uma escrita personalista, enriquecem a narrativa, que transcende assim a questionável dicotomia entre ficção e não-ficção. Em um de seus livros mais recentes, “O Acorde de Tristão”, ele ironiza sua relação com o compositor Hans Werner Henze, de quem é libretista e amigo pessoal, ao narrar a história de um professor de literatura, um germanista, cuja aproximação de um compositor celebrado tem efeitos enormes sobre o acadêmico que está justamente a escrever uma dissertação sobre o esquecimento.

A ironia e o esquecimento também são aspectos recorrentes em sua novela de estréia, “O Perdido”. Nessa obra, Treichel conta a história – segundo ele, verídica e pessoal – de um terrível drama familiar: durante a Segunda Guerra Mundial, um casal foge da invasão russa à Alemanha e, em um momento de desespero, a mãe entrega seu filho pequeno a uma outra alemã, sem ter tempo de dizer-lhe o nome da criança ou perguntar-lhe o nome à mulher. A história, contudo, é narrada do ponto de vista do segundo filho do casal, nascido depois da guerra, cuja infância é marcada pela busca incessante dos pais por esse irmão perdido, Arnold. É ele o narrador inominado que sofre com a culpa alimentada pela mãe e pela indiferença do pai.

No campo simbólico, “O Perdido” pode ser visto como um retrato da própria Alemanha do pós-guerra: a mãe representa aqueles que continuaram, depois do término do conflito, presos àquele passado doloroso e às lembranças de seus traumas pessoais, repletos de culpa pelas escolhas que os alemães fizeram no decorrer da guerra; o pai simboliza os que se aplicaram ao trabalho como uma forma de superar esse passado que eles preferiam esquecer. Em meio a essas duas diferentes posturas em relação a acontecimentos dolorosos tão recentes no imaginário de todo um país, há o protagonista que, mesmo não tendo vivido as agruras do conflito armado, sofre igualmente com suas conseqüências.

Treichel constrói essa trama pela voz de um narrador-protagonista que, sendo adulto, tem laivos de pensamento pueril ao recordar dos acontecimentos da infância sofrida. Sua narrativa em primeira pessoa e com escassa divisão em parágrafos dá ao leitor a impressão de que se acompanha os pensamentos e impressões do narrador no decorrer dos próprios acontecimentos, ainda que em termos gramaticais os verbos no passado predominem, como sói acontecer nas narrativas memorialistas.

TREICHEL, Hans-Ulrich
O PERDIDO
(trad. José Marcos Mariani de Macedo)
Companhia das Letras
O narrador e seu irmão, Arnold, também podem ser vistos como metáforas da divisão da Alemanha em dois países após sua derrota na Segunda Guerra Mundial. Arnold seria a Alemanha perdida, sob influência do bloco soviético, da qual não se tinham notícias precisas por conta de seu regime político fechado, ainda que se soubesse que ela seguia viva; o narrador é a Alemanha Ocidental, cujo peso do passado influenciava ainda uma vida que se queria normal – afastada das idéias reprováveis de sua história política recente – e progressista. Tal associação simbólica é corroborada pela cena final da novela, na qual o narrador e sua mãe aproximam-se de um jovem que seria, possivelmente, o irmão perdido. Repleta de fina ironia, a narrativa mostra que o rapaz cuja identidade é colocada em questão vive uma vida normal como aprendiz de açougueiro – profissão, aliás, intimamente relacionada às origens do próprio pai do narrador – e parece ignorar todo o sofrimento da família que o buscara incessantemente desde o momento trágico da separação. 

Em que pese a possível associação da trama de “O Perdido” com a história recente da Alemanha, não há como ignorar que seu tema mais instigante é o drama humano dessa família dividida pela guerra – uma tragédia que certamente se repetiu em tantos outros lares alemães. Como na vida real, os ausentes dominam os que permaneceram. “A vida dos mortos está na memória dos vivos”, já dizia Cícero. Que dizer então de um ausente cuja existência parece intensificar a culpa e a importância que ele teria no decorrer da vida dos presentes se o destino não lhes houvesse furtado do convívio? Treichel leva o leitor a repensar, em nossas vidas, o papel da memória e do esquecimento.
*Texto de Robertson Frizero - escritor, professor de Criação Literária e Mestre em Letras pela PUCRS.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Aprenda a destruir sentimentos com eficiência

Alguns livros desta seção podem parecer inventados, mas são reais. É o que acontece com este surpreendente "Sentimentos - e como destruí-los", parte de uma coleção de livros infantis norte-americana chamada "A Little Golden Book" que até hoje circula no mercado. Entre contos de fadas e personagens dos filmes da Disney, este aqui foi certamente um dos títulos mais estranhos da coleção. Um nome infeliz, talvez, para um livro que não se propunha a ensinar os pequenos a destruir corações, mas o oposto disso - combater o bullying.