quarta-feira, 7 de maio de 2014

CRÔNICA DA SEMANA: Escrever para crianças

"Eu estou quase inclinado a estabelecer esta idéia como um cânone, a de que uma história infantil que só é apreciada por crianças é uma história infantil ruim. As boas histórias sobrevivem. Uma valsa que você só aprecia enquanto está valsando não é uma boa valsa".
(C. S. Lewis, autor de As Crônicas de Narnia,
 em seu ensaio intitulado On the Three Ways of Writing for Children)



O escritor britânico C. S. Lewis, autor da fantástica série de livros infantis As Crônicas de Narnia e amigo pessoal de J. R. R. Tolkien, o gênio que concebeu a colossal saga de O Senhor dos Anéis, colocou muito apropriadamente, em um ensaio intitulado Sobre as Três Maneiras de Escrever para Crianças, que a pior forma de se escrever para este público é seguir a máxima mercadológica de "dar ao público o que ele quer". Na visão do escritor, buscar adivinhar o que o público infantil deseja é, em geral, empobrecer qualquer mensagem que se queira expressar - pois em geral os adultos pouco ou nada saber do que realmente se passa na cabeça dos pequenos. Temos nós, adultos, uma visão muito distorcida do que seja a infância, embora tenhamos passado por ela - já que predomina a noção errônea, em nossa sociedade, de que se tornar adulto é abandonar todo e qualquer traço do que éramos em nossa infância.

Quais seriam, então, para o autor britânico, as formas mais valorosas de escrever para crianças? Ele cita duas maneiras que pôde observar na obra de vários autores contemporâneos seus, e mesmo anteriores a ele, que possibilitaram o sucesso de tais escritos junto ao público infantil. A primeira, observada na forma como surgiram os livros de Tolkien e Lewis Carroll, consiste em escrever a partir de uma história contada para uma criança em particular - uma maneira de escrever que lembra aquela primeira, alerta Lewis, mas que neste caso é um "dar ao público o que ele quer" voltado para uma pessoa concreta, uma criança em especial, com a qual se pode manter uma relação real de oferta e retorno. Não se trata, nesse caso, de escrever para "crianças" - tomando-se este substantivo plural como significando toda uma espécie em particular, distinta dos "adultos" - mas, sim, para uma criança que irá reagir a qualquer tentativa sua de narrar uma história como "se estivesse contando para uma criança" (uma ideia que quase sempre leva a uma redução vocabular e simbólica, verdadeiro atalho para o enfado ou a rejeição das crianças em relação ao que se está a narrar; um erro, aliás, cometido mesmo por boa parte dos livros didáticos escritos para as séries iniciais).

O segundo modo de escrever para crianças, diz C. S. Lewis, é o de escrever uma "história para crianças" por se sentir que este é o único gênero possível no qual aquele enredo poderia ser contado. Esta colocação de Lewis faz-me recordar de todos os livros de Monteiro Lobato que li na infância e que, já depois dos trinta anos, pude voltar a ler já com os olhos de adulto. São histórias que não se tornaram tolas com o tempo, que ainda estão plenas em significados e permitem diversos níveis de compreensão - como todos os clássicos da literatura infantil que posso recordar. Não creio, por exemplo, que Charles Perrault tenha escrito histórias como "Pele de Asno" - na qual uma princesa foge do castelo disfarçada sob uma pele de asno para fugir das ameaças incestuosas do rei, seu pai - para crianças; mas elas oferecem várias formas de interpretação, diversos pontos de interesse de acordo com a idade e a capacidade de compreensão do leitor. Talvez por isso eu tenha escrito apenas uma única história para crianças - a única que me pediu para ser escrita pela arte nada tola do conto infantil.

E como andam os livros infantis que estão a fazer desse gênero um campeão de vendas mesmo no Brasil, um país que não se pensa através da literatura? Felizmente, há bons lançamentos, até mesmo reedições de histórias clássicas, como as de Andersen, Perrault e Lobato, em publicações que resgatam o texto e ilustrações originais. E nosso país é pródigo em escritores de livros infantis de qualidade, como Ruth Rocha e Ana Maria Machado (sendo injusto e citando apenas duas de minhas autoras preferidas). Ainda assim, o que mais se vê nesse mercado ainda são umas tolices multicoloridas vendidas como livro infantil - não raro estendendo a armadilha da aparência paradidática para capturar pais e mães desavisados.

Há, por exemplo, uma profusão de livros cujos personagens principais são bruxas e bruxos - na poeira do grande sucesso editorial infanto-juvenil da década, a ótima série Harry Potter, da inglesa J. K. Rowling -; mas são quase sempre pouco inspirados, alguns deles repletos de lugares-comuns e, pasmem, até mesmo generalizações e preconceitos que jamais deveriam constar em publicações voltadas para um público em formação. Além desse filão, existe uma avalanche de livros infantis baseados em famosos personagens de desenhos animados - nenhum problema com isso, se o apelo não fosse tão-somente o protagonista, por si só, exposto em conteúdos sem nexo ou mesmo histórias amorais e, em geral, tolas. As meninas, em especial, estão sendo bombardeadas com livrinhos sobre princesas e bonecas em uma quantidade tão imensa que deveriam fazer os pais desconfiarem dessas publicações como mero merchandising para vender brinquedos. Nada dos jogos de palavras, das cadências divertidas e sons repetidos que despertam na criança as possibilidades do uso da linguagem como diversão. Parece que, aos olhos de algumas editoras infantis e, infelizmente, da maioria dos pais, livro infantil é sinônimo de livro colorido. O pior de tudo são os livros de escritores renomados, celebridades instantâneas, cantores e outros famosos que se arvoram a escrever livros infanto-juvenis sabe-se lá porquê - talvez apenas para completar aquelas metas míticas de "ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro".

E as tolices em forma de adaptação de textos clássicos? Há desde livros que se propõe a explicar para as crianças escolas filosóficas complexas como o existencialismo (para quê?) de Jean Paul Sartre, o autor dos indigestos A Idade da Razão e A Náusea, em um livro que transforma o filósofo e sua companheira em Sartrezinho e Simoninha de Beauvoir, a adaptações modernosas. como certo livro baseado na Lenda dos Cavaleiros da Távora Redonda que oferecia "uma versão divertida do triângulo amoroso de Artur, Guine e Lance (sic!)" para um público que talvez jamais tenha ouvido falar da história original. Mais que isso: há algumas adaptações tenebrosas, no sentido etimológico do termo, que transformam em sombra e escuridão as obras literárias mais emblemáticas do Ocidente. Mas todos eles são obras que vendem, e muito;  sem exceção, são livros sempre bem coloridos.

Bom ou ruim, o livro infantil é um instrumento importante na construção de futuros leitores. Mas o objeto estranho, de capa dura e folhas de papel unidas por um emaranhado de costuras, só se tornará amigo da criança se for um companheiro também fiel dos adultos que a cercam. O livro infantil é para ser lido, primeiramente, pelos pais para seus filhos, pelos professores para seus alunos, pelos adultos para as crianças que, despertadas pela curiosidade de saber como saem daqueles papéis estranhos tantas aventuras divertidas e fantásticas, irão costurar aos poucos uma relação de amizade com o livro. Não basta comprar a publicação mais ilustrada e multicor da livraria na esperança de que ela, ser inanimado, consiga sozinha transformar as crianças em ávidos leitores.
*Robertson Frizero é escritor, tradutor e dramaturgo. Coordena e ministra oficinas de Criação Literária na Sapere Aude! Livros, além de coordenar o Clube de Leitores da livraria. 

**Neste espaço, semanalmente, serão publicados textos de autoria dos clientes e leitores da Sapere Aude! Livros. Veja como participar aqui

terça-feira, 6 de maio de 2014

Com a palavra... SUSANA VENTURA

Susana Ventura
"Enquanto Portugal se manteve historicamente observando, com bastante interesse e proximidade afetiva, a produção cultural brasileira – notadamente a música popular e a cultura veiculada pelas produções televisivas, mas também a literatura brasileira, especialmente a produzida por autores de maior engajamento político –, o Brasil se desligou da maior parte do que foi produzido em Portugal nas últimas décadas pelo menos. Diria que, na área da literatura – que é o que importa mais abordar nesse momento – um hiato separa em nosso imaginário o ícone Fernando Pessoa do próximo escritor português que desperta grande interesse: José Saramago. De alguns anos para cá, ainda falando somente sobre literatura, um número maior de boas edições brasileiras da obra de autores portugueses e o trabalho incessante dos professores de literatura portuguesa, especialmente nos cursos de Letras, levaram ao despertar de interesse por nomes notáveis como Agustina Bessa-Luís, Sophia de Melo Breyner Andresen, Lídia Jorge, Lobo Antunes, Teolinda Gersão, e, mais recentemente, Dulce Maria Cardoso, Valter Hugo Mãe, José Luís Peixoto, Inês Pedrosa. Este movimento traz uma complementação ao conhecimento de autores com os quais o público leitor brasileiro está há muito tempo familiarizado por fazerem parte há muitas décadas do currículo escolar, como Gil Vicente, Padre Antonio Vieira, Eça de Queirós e, sobretudo, Fernando Pessoa."

- Susana Ventura é escritora e professora universitária. Doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa pela USP, trabalha com literaturas contemporâneas produzidas no Brasil, Portugal, Cabo Verde, Angola e Moçambique. É autora dos livros "Convite à Navegação – Uma Conversa sobre Literatura Portuguesa", ganhador do Selo Altamente Recomendável da FNLIJ na categoria Livro Teórico, e do livro "Ciranda de Escritas: Ensaios Sobre as Literaturas de Língua Portuguesa", entre outros.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Meu livro preferido é... O TEMPO E O VENTO

"Sou fascinado pela maneira como Érico construiu sua saga, atravessando décadas, com comando firme, sem perder o ritmo. Traz personagens inesquecíveis. O Brasil se desenrola em vários volumes, como se fosse um longa americano. História de amor e aventura. Tem lirismo, paixão, sensualidade, drama. Todos os ingredientes para um épico."

- Ignácio de Loyola Brandão é um jornalista e escritor brasileiro, nascido em Araraquara, São Paulo, no ano de 1936. Em 2008, foi agraciado com o Prêmio Jabuti de Melhor Livro de Ficção do Ano com "O Menino que Vendia Palavras".

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Você sabe?!?... O MELHOR FILME DE TODOS OS TEMPOS



por Mires Batista Bender
Cartaz original do filme

Ao completar 73 anos de sua primeira exibição, que ocorreu em maio de 1941, Cidadão Kane, de Orson Welles, continua sendo considerado por críticos e diretores cinematográficos, o melhor filme de todos os tempos.

Talvez seja impossível apontar a melhor peça cinematográfica já produzida. Ter-se-ia de levar em conta uma infinidade de fatores, começando por encontrar a resposta para  questões como: o que define uma obra de arte? Quais são os critérios para se decidir qual obra é mais interessante ou mais profunda do que outra, seja ela cinematográfica, pictórica, literária ou musical?

O fato é que, sete décadas após sua estreia em Nova York, Cidadão Kane (título original: Citizen Kane) ainda circula por toda parte e espalha o mistério de sua trama que fascina cineastas e expectadores até os dias de hoje, contando a dramática trajetória de um magnata da imprensa norte-americana.

Diversos críticos analisam os efeitos inovadores das técnicas empregadas por Orson Welles, como o uso de lente grande-angular, que oferece um campo visual maior e com mais profundidade; os enquadramentos em câmera baixa; os cenários com teto; os longos planos-sequência e a relação direta entre atores e cenário. Todos concordam que, com o uso desses recursos, o cinesta americano colocou em evidência a própria narrativa, provocando uma mudança radical no modo de pensar o cinema. 

O BFI – British Film Institute, realiza a cada dez anos, desde 1952, uma pesquisa para saber qual o melhor filme do mundo. São entrevistados diretores e críticos de cinema. Na consulta realizada em 2002 estavam, entre os críticos ouvidos, os britânicos Barry Norman e Jonathan Ross e o norte-americano Roger Ebert. Entre os diretores, destacavam-se Quentin Tarantino, Sam Mendes e Bernardo Bertolucci. A pesquisa é considerada uma referência pela indústria cinematográfica e Cidadão Kane liderou nos últimos 50 anos.

Cena de "Cidadão Kane" (1941)
O AFI – American Film Institute, confirmou a preferência pelo filme de Welles, em pesquisa realizada em 2007. A obra foi eleita a partir de uma lista de 400 longa-metragens, escolhidos por 1.600 personalidades, na maioria representantes da indústria cinematográfica, intelectuais e um espectador de cada estado norte-americano.

Pela primeira vez, na pesquisa realizada em 2012, Cidadão Kane deixou o topo da lista e deu lugar a Um corpo que cai (título original: Vertigo) de Alfred Hitchcock (de 1958).
  

O melhor filme de todos os tempos provavelmente não exista, como também não deve existir a melhor música, a melhor pintura ou o melhor livro. Pode-se declarar, com segurança, é que Cidadão Kane legitimou o cinema como forma de arte e, após décadas de renovações narrativas e tecnológicas, esta grande obra vem resistindo aos testes do tempo.




* Mires Batista Bender, doutora em Letras pela PUCRS, acredita que as palavras são magia e fez delas seu ofício. Professora de línguas e Literatura criou o primeiro fã-clube de escritor para homenagear a união entre seus maiores prazeres: pessoas e poesia. Interessada e curiosa por todos os temas que fazem fluir o poético, conversa sobre eles nesta coluna...

quinta-feira, 1 de maio de 2014

A blogueira e a força da linguagem

por Ademir Furtado
 
Helena Terra
Há uma crença antiga entre alguns literatos de que literatura se faz com palavras, não com ideias. Essa máxima é válida com uma condição: a de que as palavras tenham força e vigor, e sejam pronunciadas com a potencialidade de fecundar a página onde penetram. E aí já caímos num paradoxo, porque a palavra fecundante já não é uma simples palavra, é um fluxo semântico capaz de alterar a significação de qualquer enunciado.
Recentemente li um livro que me fez refletir sobre essa questão. Trata-se de A Condição indestrutível de ter sido, de Helena Terra, publicado pela Dublinense em 2013. É o tipo de obra em que a linguagem é o personagem mais importante. A fabulação é simples. Uma mulher jovem cria um blog coletivo e lá conhece um homem e se apaixona por ele. Ou melhor, pelas palavras dele, pois o relacionamento, de início, é apenas virtual. Mais adiante, as palavras adquirem corpo e o homem se materializa num quarto de hotel. Impossível não fazer aqui uma associação com o poder de criação pela palavra. A mulher disse: faça-se o homem da minha vida, e o homem se fez. E a mulher viu que isso era bom e correu ao encontro dele.  Mas, passados poucos dias, viu que o homem era Mau e não hesitou em evocar outras palavras pronunciadas em outro quarto de hotel.
As leituras possíveis são várias. Uma delas, a personagem seria uma espécie de Pigmalião feminino da era da internet. Mas a minha preferida é a que dá à palavra o poder de despertar uma realidade que está potencializada num corpo ainda não fecundado. Porque o estado emocional da personagem é dado em algum momento. Ela vive um relacionamento real que é mais virtual do que aquele iniciado pelo computador, uma situação evidente de privação afetiva. A percepção da própria carência é a circunstância determinante do desejo por algo mais intenso. Porém, esse desejo á apenas latente, porque não tem um objeto em que se projetar. É alguma palavra lançada na tela do computador, que traz o significado de um homem dotado de poderes mágicos, que vai canalizar toda a ânsia por uma vida mais satisfatória. A partir daí, cada palavra desse homem vai se somar à primeira e construir na imaginação dessa mulher um texto que só ela lê. O próprio homem, aliás, cheio de reticências, um sinal muito eloquente da linguagem, parece não corroborar a leitura que ela faz do texto dele. Mas, para ela isso não importa. O texto que ela passa a recitar já estava ovulado, e só precisava do sêmen da palavra para germinar.
Se essa minha leitura tiver algum fundamento, aquela máxima do início desta resenha fica comprometida. E não seria pra menos, pois as palavras com esse poder de criação não andam jogadas ao vento como uma folha de papel em branco. Elas carregam o peso das ideias que transmitem e são certeiras, sempre visam um alvo determinado. A palavra que não tem o poder de transmissão de um pensamento é apenas um ruído para quem ouve, e uma mancha no papel para quem lê.

*Ademir Furtado é escritor. Seu romance "Se eu olhar para trás" foi publicado pela Dublinense em 2011. Ademir é também um dos mais assíduos frequentadores do Clube de Leitores da Sapere Aude! Livros e mantém o site http://www.ademirfurtado.com.br. 

quarta-feira, 30 de abril de 2014

CRÔNICA DA SEMANA: Recomendações

Não pegue sereno.
Não ande descalço.
Não brinque com fogo.

Não pise na grama.
Não pise na bola.
Não cuspa no chão.

Não dê esmola nos sinais.
Não alimente os animais.

Não esqueça de apagar a luz.
Não esqueça de pagar o carnê em dia.
Não esqueça de colocar o cinto de segurança.

Não fume.
Não buzine.
Não entre.

Não perca a promoção!
Não deixe de assistir!
Não fique fora dessa!

Não fale com estranhos.

Antes de dirigir, não beba.
Antes de ligar, leia o manual.

Antes de entrar,
verifique se o mesmo
encontra-se neste andar.

Vá pela sombra.
E não dê ouvidos ao que essa gente fala.

*Robertson Frizero é escritor, tradutor e dramaturgo. Coordena e ministra oficinas de Criação Literária na Sapere Aude! Livros, além de coordenar o Clube de Leitores da livraria. 

**Neste espaço, semanalmente, serão publicados textos de autoria dos clientes e leitores da Sapere Aude! Livros. Veja como participar aqui

terça-feira, 29 de abril de 2014

Com a palavra... GABRIEL GARCIA MÁRQUEZ

"Tenho a impressão de que comecei a ser escritor quando me dei conta de que eu não servia para nada. Agora, não sei se desgraçadamente ou afortunadamente, creio que é uma função subversiva, não é mesmo? No sentido de que não conheço nenhuma boa literatura que sirva para exaltar valores estabelecidos."

- Gabriel Garcia Márquez foi um dos maiores escritores de língua espanhola e o mais destacado representante da América Latina dentre os nossos romancistas. Vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, sua obra revolucionou a literatura latino-americana. Faleceu em abril de 2014.