segunda-feira, 13 de maio de 2013

O Soneto



Um dos mais famosos sonetos de Luís de Camões
O soneto é, talvez, a única forma poética que a maioria dos leitores da atualidade reconheçam, ao lado do haicai. Sua forma de quatorze versos remonta ao Renascimento e é até hoje bastante popular e praticada por poetas em todo o mundo ocidental.

Como forma, o soneto é marcado pelo número fixo de versos - quatorze, divididos em dois quartetos e dois tercetos, no soneto petrarquiano, e três quartetos e um dístico, no caso do soneto shakespeareano. Há ainda o chamado soneto monostrófico, de uma única estrofe de quatorze versos.

Sua forma é de tal modo marcante - e talvez por isso tenha sido uma das poucas formas poéticas a ter sobrevivido ao longo da história da literatura - que permite ao poeta até mesmo brincar com seu modelo de composição:


UM SONETO APENAS*

Pedem que eu escreva apenas um soneto,
quatorze versos, nada mais que isso,
sem tema ou mote, ou qualquer compromisso
de rimas raras ou metro correto.

Pedem não mais que um simples quarteto
acompanhado de outro, submisso,
que me auxilie a me ver livre disso
e me encaminhe ao primeiro terceto.

Pedem-me então que ainda não desista
e persevere por mais cinco versos
para provar minha verve de artista

e então eu junto esses termos dispersos
apenas para que não mais se insista
e eu volte a escrever textos diversos.
 


Há muitos críticos das formas poéticas na atualidade, quando a poesia parece ter experimentado todas as suas possibilidades expressivas e as regras de composição poética soam como amarras à expressividade. Thomas C. Foster, em seu Para ler literatura como um profesor (Lua de Papel, 2010), contudo, recorda que "existem diversos modos pelos quais um poema consegue encantar o leitor: escolha de imagens, musicalidade da linguagem, ideias que contem, destreza no jogo de palavras" e que nenhum deles é essencialmente impedido pelo fato de o soneto ser uma forma fixa. 

Florbela Espanca, uma das mais profícuas sonetistas em língua portuguesa
A "limitação" imposta ao trabalho do poeta pelos quatorze versos do soneto faz com que seu labor tenha que ser intensificado para que se possa apresentar o máximo de efeito com o mínimo de recursos. Grandes nomes, antigos e modernos, escreveram alguns dos mais belos poemas na forma de soneto: Dante, Camões, Shakespeare, Baudelaire, Pushkin, Florbela Espanca, Cruz e Souza, Manuel Bandeira, Augusto dos Anjos, Vinicius de Moraes... Além disso, o soneto modernizou-se e já nas últimas décadas os esquemas rímicos tradicionais do soneto foram abandonados por alguns em nome da liberdade dos versos brancos. Nas palavras de Foster, sonetos são "poemas curtos que tomam muito mais tempo que os longos, porque tudo tem de ser perfeito" - ou seja, o poeta escolhe essa forma não por ter limitações para escrever grandes poemas épicos, mas por estar em busca da intensidade do soneto.

 *Texto e soneto "Um Soneto Apenas" de autoria de Robertson Frizero - escritor, professor de Criação Literária e Mestre em Letras pela PUCRS.
**Por motivo de força maior, esta coluna não saiu na sexta-feira, como de costume.

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