Narrada em primeira pessoa por um advogado de Wall Street que mantém um escritório como Master in Chancery (uma espécie de tabelião, função que Melville usa como metáfora de um trabalho mecânico e pouco inspirado), a novela conta a história da admissão, pelo narrador, de um novo escriturário, Bartleby, cujo “aspecto singularmente tranqüilo, o qual poderia exercer”, na visão do patrão, “uma influência salutar” sobre os demais funcionários, cujos temperamentos são descritos pelo autor como “arrebatado” e “fogoso”. O conflito inicia-se a partir de um posicionamento inesperado de Bartleby diante de um pedido corriqueiro de trabalho feito pelo advogado: à solicitação para que ele o auxiliasse na conferência de um documento, o novo funcionário contesta com uma frase que é pelo patrão entendida como uma recusa - "I would prefer not to." Incapaz de forçar o novo empregado a cumprir suas funções, e assustado por vê-lo cada dia menos empenhado em seu trabalho como escriturário, o advogado vê-se constrangido a mudar o escritório de endereço para fugir da presença de Bartleby, que se tornara morador do escritório e cujas “recusas” sucessivas – a trabalhar, a ir ao correio, a falar sobre seu passado, até mesmo a abandonar o escritório depois de ser dispensado pelo patrão, e sempre a repetir sua fala habitual, "I would prefer not to" – ameaçavam destruir o equilíbrio inicial existente no escritório e na vida profissional do narrador.
A instigante história escrita por Melville tem a clássica estrutura do que em literatura se convencionou chamar de novela - um termo que no Brasil, infelizmente, pode causar confusão com as telenovelas, em verdade mais próximas aos melodramas do século XIX que à prosa literária -, quer seja pela concentração de tempo, pelaa escassez de personagens, pela unicidade de conflito ou pela pouca alteração de espaço. Pode-se imaginá-la, estruturalmente, em três momentos narrativos: um prólogo, no qual o narrador declara a intenção da narrativa – “relatar algumas passagens da vida de Bartleby, o mais estranho de todos” os escriturários “que jamais vi e de quantos tive notícia” – e apresenta a ambientação e os demais personagens; um núcleo central, no qual é apresentado o protagonista por meio do conflito que sua atitude gera naquele escritório; e um desfecho a partir do clímax da história, que seria a prisão de Bartleby diante de sua recusa em abandonar o prédio onde o advogado tinha seu escritório e as conseqüências de seu encarceramento. A estrutura mínima usada por Melville para tal composição – cuja caracterização antecipa o realismo na Literatura em alguns anos – funciona perfeitamente para o intuito do autor de apresentar uma trama que parece ser conduzida não pelas ações, mas pela ausência delas: a “recusa” de Bartleby – a qual pode ser entendida não como uma negação, mas como uma expressão de sua vontade, à qual o patrão se sente incapaz de contrariar, já que o servidor diz apenas que “prefere não fazer” –, mais por um profundo estado depressivo de anulação da vida que por uma deliberada revolta contra o patrão, é uma ausência de ação que leva ao conflito e à exasperação do narrador que, por sua vez, tendo em suas mãos a autoridade de chefe, não a exerce.
Se um dos sinais de uma obra clássica é sua universalidade, a qual garante um caráter também de atualidade aos temas nela propostos, "Bartleby, o Escriturário" pode facilmente ser assim classificado: seu retrato de um mundo opressivo e vazio, de uma classe de trabalhadores cujo ideal de vida é esvaziado pela ausência de sentido nas tarefas que lhe são atribuídas - e pela ausência de sonhos que lhes motivem a seguir adiante -, torna a pequena novela de Herman Melville um texto repleto de contemporaneidade.
*Texto de Robertson Frizero - escritor, professor de Criação Literária e Mestre em Letras pela PUCRS.
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